terça-feira, janeiro 31, 2012

[Poesia] A Lembrança.




A lembrança.

O que guardamos no baú da mente
Se assemelha a um tanto
De escombros em decomposição
Que por vezes tentamos
Desesperadamente reconstituir
Sem saber que este ato sombrio
É como se flagelar inutilmente 
Em busca daquilo que já não repousa 
No afago da parte do existente.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

domingo, janeiro 29, 2012

[Poesia] O último canto do olhar.




O último canto do olhar.

O mistério do par de olhos
Conduz-me a uma ilhota
D’onde escavo bem fundo.
Se o raso é a terra imunda
Como não os repararia
Almejo o além do abismo do mundo.

Se houvessem duas luas.
Até lá navegaria.
Dentro do raso e do profundo.
Da metade e do inteiro.
Não há nada, que esteja além,
Nem mesmo dentro do mundo.

Quem és tu?
Resposta não encontro
O limite é um par de olhos. 
Os sábios privilegiados estão além. 
Nenhum há de me contar...

Benditos chapéus de reticências
Cercado pelas visões oblíquas
D’onde mora cercanias de silêncio
Além de lá, encontro muito.
Que do muito, perde-me desejo.
Pois afeto não há de proporcionar
Semelhante ao que se exalta 
Na insignificância daquele olhar.
(Antônio Alberto P. de Almeida)



sábado, janeiro 28, 2012

[Poesia] O Esquecido.


(Ou o quinto motivo do não-amor.)



Por mais que sejamos gente
Entre outras tantas. 
Sempre haverá um último
Para fechar as portas
E apagar as luzes.
 (Antônio Alberto P. de Almeida)

domingo, janeiro 22, 2012

Terceiro poema de amor misterioso - O Olhar.



Os seus olhos tão intrigantes
Que nos tempos de claridade
Deixam os meus sem rumo
Quando se descortina a madrugada
Metamorfoseia-os em criaturas insones

Sou apenas um reles mortal
Que mergulha nos olhos afundados
Pela intensa falta de razão
D’onde o tempo pode não aclamar

Que será que há algo nesse mundo
Que aglutine tanta coisa nobre
Na mera insignificância do que
Pode ser um palhaço em espelho?

Sou apenas um reles mortal
Divago nesta  filha da loucura
D’onde enxergo um olhar
Nas profundidades d’uma Monalisa
E o que resta, é parte de um lamento

Eis que busco uma resolução
Deste mistério profano da vida
Que eu mesmo inventei
Sem eira, nem beira
Sem uma virtude explícita

É como uma parte suja de mim
Que insiste em ser malabarista
E no fundo, bem no fundo
Repete-se em espetáculos estranhos
Onde é ator de peças sem futuro...
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quarta-feira, janeiro 18, 2012

O segundo poema de amor mais misterioso.



A flor que flutua esparsa
Por dentro do vasto campo
Nada pode ser, pois não é
O símbolo de dois olhos.

Se me atirasse a ela
E a tornasse minha,
Ela deixaria de ser nada
E passaria a ser algo.

Que poderia fazer 
Com esta simples flor
Em minhas mãos.
Nada me acometeria
Se num instante não vislumbrasse 
O próprio sorriso da sua alma.

Então alcançaria a ti,
D’onde grato seria
Diante do seu eu sublime
E seria a ti, somente a ti
E a mais ninguém,
Que concederia este afago 
Do homem perdido no vale dos lírios.

Refiro-me a metamorfose da flor,
Que quando graceja suas mãos.
E passeia entre os seus olhos
A tua boca e o teu corpo todo
Deixa de ser uma simples flor
Criatura da terra, que outrora
Nem por nomenclatura seria.
E vira uma espécie de amor
O amor gracioso que conduz
À representação em si do sublime
E alcança o êxtase do que agora é
Quando se torna um ser residente 
De dois corações ávidos pelo além.
(Antônio Alberto P. De Almeida)

terça-feira, janeiro 17, 2012

A Poesia por Fernando Pessoa.


“Eu era um poeta impulsionado pela filosofia, não um filósofo dotado de faculdades poéticas. Adorava admirar a beleza das coisas, descortinar no imperceptível, através do que é diminuto, a alma poética do universo.

A poesia da terra nunca morre. É possível dizermos que as eras transactas foram mais poéticas, mas podemos dizer (…)

Há poesia em tudo — na terra e no mar, nos lagos e nas margens dos rios. Há-a também na cidade — não o neguemos — facto evidente para mim enquanto aqui estou sentado: há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro; há poesia na trepidação dos carros nas ruas em cada movimento ínfimo, vulgar, ridículo, de um operário que, do outro lado da rua, pinta a tabuleta de um talho.

O meu sentido interior de tal modo predomina sobre os meus cinco sentidos que — estou convencido — vejo as coisas desta vida de modo diferente do dos outros homens. Existe para mim — existia — um tesouro de significado numa coisa tão ridícula como uma chave, um prego na parede, os bigodes de um gato. Encontro toda uma plenitude de sugestão espiritual no espectáculo de uma ave doméstica com os seus pintainhos que, com ar pimpão, atravessam a rua. Encontro um significado mais profundo do que os terrores humanos no aroma do sândalo, nas latas velhas jazendo numa montureira, numa caixa de fósforos caída na valeta, em dois papéis sujos que, num dia ventoso, rolam e se perseguem rua abaixo. E que poesia é espanto, admiração, como de um ser tombado dos céus em plena consciência da sua queda, atónito com as coisas. Como de alguém que conhecesse a alma das coisas e se esforçasse por rememorar esse conhecimento, lembrando-se de que não era assim que as conhecia, não com estas formas e nestas condições, mas de nada mais se recordando.”
(Fernando Pessoa)

segunda-feira, janeiro 16, 2012

O poema de amor mais misterioso de todos.





Lançaria a ti um abraço
Apenas se um dos braços
Fosse teu. Assim eles
Poderiam formar um traço
Para além do que é humano
Dentro da pequenez de um corpo.

Sentir é metade assim,
Embora a outra metade
Pareça ser coisa alguma.

Ao consentir com o impossível
Lhe convidaria a esquecer de ver 
Pegaria uma das suas mãos
Esticaria o seu braço
Juntaria ao meu e o traria para baixo.
Tão logo a ternura fosse alcançada
Abriria os teus olhos
Para o ângulo onde vislumbrasse
Que apesar de não termos ainda um amor,
Já tínhamos formado um só coração.
(Antônio Alberto P. de Almeida)




quarta-feira, janeiro 11, 2012

[Poesia] Pobre Salvador - Retrato de um abandono.


Eis que no atlântico sul
Atraca mais um dos tantos verões!
E na Bahia, a terra de todos nós,
O sol, sujeito tão presente.
Dá os ares da sua fuga
(Com louvor e palmas.)
Apenas quando o mar anuncia
O reinado da noite.

O reinado da noite...
Coisa efêmera.
Sábios boêmios,
Negam-se a fechar as pálpebras
No inverso das engrenagens
Fatigadas pelos minutos de boi.

E que seria dessa terra,
Tão suada e maltratada,
Sem o louvor da noite
Para um descanso merecido...

É mentira! É tudo mentira!
(Leia “É Mentira!” num alto falante.)

O boi que finda a anestesia
Levanta-se com brisa de regenerado
Mas a terra, a terra não!

A terra padece imunda
A pintura descasca
A calçada desgasta
O prédio ameaça ruir
A sujeira invade a praia. 

E que diriam os homens!
Se soubessem do sofrimento
Da sua quase finada cidade!
Os homens dormem.
Eles não dirão nada.


Nesta terra
No meio do atlântico sul
Onde muitos habitam 
Mas não há quase ninguém
A cidade ameaça ruir
Sem participação popular.
 (Antônio Alberto P. de Almeida)

sábado, janeiro 07, 2012

A sensibilidade não cabe no mundo.



Maldita sensibilidade, porque que eu nasci com você? Justo você que não cabe nesse mundo. Sua criatura infame porquê escolheu a mim: um pobre homem submerso numa sociedade desgostosa de ti. Porquê a mim? Que aqui não posso enamorar-me com profundidade sem um impiedoso sentimento de aniquilação. Nessa terra dos tantos desamores! Poderia ensinar-me a te esconder assim padeceria de uma carapuça fria e passaria nesse inverno horroroso em sintonia com as perversões gerais dos seu opostos maléficos. Mas não. Não bastasse nascer comigo, ainda trouxe ao seu lado a poesia. Como poderei lhe esconder, se me pega no meio da rua, me mostra a criança com fome e me faz sentir dor. Faz-se do sol de lamúrias, circo de palavras. Não, não posso. Que me resta, então, além de arder contigo nesse submundo. Que me resta, poderia te vender de uma vez, mas conviveria com o seu fantasma a me assombrar. E, então, você me mostraria quão cruel pode ser, me fadando a um vazio terrível de quem sabe que tomou a decisão errada. Que me resta, então? O par de pantufas que me trouxe anda banhado nas tantas lamúrias potencializadas pela sua existência! Maldita! Me leve para o seu mundo de uma  vez! Traga até mim os pássaros iluminados banhados em luz para que eles me guiem ao lugar certo. Se assim chegar a algum lugar onde a palavra bonita atinja um coração com plenitude, onde a mão for banhada em grãos retorcidos de existências sem sentido. E tudo, tudo for poesia, não estarei mais no mundo errado da perversão torta! Estarei, finalmente, no lugar certo. Mas se o lugar certo for esse, talvez seja a hora de começar a  buscar um sentido no erro! Porque sempre há de haver um...
(Antônio Alberto P. de Almeida)

sexta-feira, janeiro 06, 2012

[Poema] O Pântano e o Coração II




Posso passear sobre  
A falta de razoabilidade
E lembrar que poema
É capaz de valer mais que
Dissertação de mestrado.
Posso me debruçar sobre
A fome, a miséria e a burguesia.
Que ainda assim, ao final,
Nada mais irá me caber 
Pois o vazio do verso
Que não tem para quem ser
Sempre tem metade da beleza
Que poderia ter.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

segunda-feira, janeiro 02, 2012

[Poesia] O pântano e o coração.




Penso nos tantos amores 
Que deixam de surgir
Quando os corpos se cruzam
E os olhares não.
(Antônio Alberto P. De Almeida)