Parte 1.
Parte 2.
João se espreguiçava diante do ócio de domingo. Assim como o sol, que bocejava, já sem tanta voz. Pensava em Rosa. Pensava no que queria de Rosa. E chegava sempre a mesma conclusão, a ânsia era apenas por um mísero abraço. Nada melhor para começar a pensar em outras coisas, dizia para si mesmo.
A representação platônica dos óculos negros e retangulares permanecia recôndita na sua mente. Que faria ele, se nem conquistava o início de todo resto. Não se julgava merecedor de tanta noite. Era aquilo, justamente aquilo. Nada mais do que aquilo, que tornava aquele dançar dos braços por entre o corpo, algo especial. Os humanos dão mais valor ao que não tem, era a conclusão que ele poderia chegar, mas não haveria, pois existem coisas que não podem ser ditas, nem descobertas. A maioria delas. Se não o mundo perde a graça. Os abraços também, e todas as outras milhares de coisas, dos milhares de mundos humanos.
Aquele gracejo dos braços brancos e macios seria semelhante a tantos outros, mas quando o ser quer fazer do nada, canto de passarinho, não há nada a fazer. Nós, os outros, temos mais é que deixar os desejosos mergulhar neste ato tão supremo! Poesia nunca é pouco para a vida. Especialmente nestes tempos sombrios. Onde todo o resto das coisas, parece desejar retornar a certa condição animalesca e destituída de tudo de mais belo que pode existir: o colorido intrépido das sensações intensas, infinitas e sempre mortais. Mais vale um cemitério de paixões e amores, do que um enorme campo brando, onde o mato se entranha por cima do coração, e mostra a impossibilidade de um dia ter estado entregue ao próprio vislumbre do algo maior. É o medo, e não o arrancar angustiado da desilusão, o maior de todos os inimigos do nascimento dos amores. Há diferenças profundas entre relacionar-se com alma e com o corpo. Havia uma sutil antítese na desvalorização da vivência de João. Era algo risível.
Que haveria de imaginar, a dama de honra platônica, se soubesse dos desejos incessantes escondidos. Talvez se espantasse, ignorasse, mas dificilmente se sentiria conquistada, assim pensava. Se fosse diferente, estaríamos já falando em outro plano. Quem sabe resolvesse dar abraços e até mais coisas. Talvez tudo se convertesse em carne, sexo e orgasmos. Mas, não. Aquilo era outra coisa. Era apenas o passear deslumbrado de um personagem envolto por uma espécie de delírio. Psicótico, se fôssemos utilizar as classificações atuais desta sociedade tão pouco coesa e que mal consegue se definir, apesar de dar nome a tudo que está para além de si.
Poderia existir algo de diferente, se para Rosa o amor e a sinceridade preenchessem o buraco que se abre no ato de vir ao mundo. Mas nada se sabia sobre isso. Ainda. Ou talvez nunca se chegasse a este ponto da incoerência do existir. João poderia simplesmente acordar cansado, se levantar achar tudo sem graça e nunca mais voltar a sentir. Ou poderia ser atiçado por outros lados. Havia ainda a possibilidade do enquadramento da Rosa como criatura imortal. Que haveria de acontecer? Restava esperar que os dias pronunciassem o final daquela história, se viria em forma de grito, berros, como música ou sussurro, sobre isso nem a mais sábia das criaturas arriscaria um palpite.Há coisas que estão para além do conhecimento.
(...)