domingo, outubro 27, 2013

[Poesia] Estrofes em tempo de falar sobre o tempo.


[Poesia] Estrofes em tempo de falar sobre o tempo.
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E faltam-me até os segundos
Para os versos passíveis de traduzir
Os pequenos elementos do cotidiano
Na solidez da beleza que 
Não se faz numa palavra só,
Mas num conjunto de versos passíveis
Até mesmo de existir para o eterno.  

Se já não tenho tempo, apenas observo.
Que eterna mesmo é a vida em três belos passos.
Dados com tanta maestria, que são seguidos de um tombo.
Que no ato da queda vira os olhos para o outro lado
E torna passível uma visão que antes não existia:
É como se perdêssemos as cores,
Quando optamos por “óculos escuros”.

Se já não tenho tempo, apenas observo,
Essa gente chegando e partindo,
É como se a gente tivesse feito da vida,
Uma grande estação de trem às quatro da tarde,
De alguma data muito importante...
Mas se não estamos numa estação de trem às quatro da tarde,
De alguma data muito importante...
É que a própria vida é isso,
Sem uma palavra a mais, nem a menos.

Se já não tenho tempo, o tempo sou eu mesmo.
Acometido pelas músicas desgastadas e retorcidas,
Que mais parecem velhas roupas
Jogadas ao fundo do armário,
Ou papéis amarelados no fundo
Da gaveta cheia de poeira.
E se sou o próprio tempo
É porque ele entra por dentro de mim,
Atravessa-me de uma forma inevitável,
Desfazendo e rindo.
Zombando da minha ansiedade.
Dos meus desejos pulsantes,
Enquanto passa tranquilamente,
Como se tudo não passasse de uma tarde,
No banco de uma praça cercada de árvores...

E se esse tempo que me atravessa,
Já sou eu ao mesmo tempo em que está distante
Quando faz de mim seu eterno refém,
Questiono-me, o que nessa vida de temporalidades,
É mesmo importante diante das efemeridades?
É tão somente a ausência da contemplação do vazio,
Que nos atira lentamente aos passeios inevitáveis...
Rumo ao que eu poderia, numa visão muito otimista,
Classificar de  “momentos elementares” da vida,
Ou grandes momentos. Mas, assim não chamo.
Não há garantia, há apenas contemplação, desejo.
Algo vindo e coisa sempre sendo vivida,
E, então, caro companheiro de breves
Ou até mesmo de longas caminhadas,
O que é mesmo de mais belo
Que poderíamos ter nesta vida?
(Antônio Alberto P. de Almeida)



quinta-feira, outubro 10, 2013

[Poesia] As Quatro Faces do Desejo.


As Quatro Faces do Desejo.

O desejo que não marca horário,
Toma-nos em um dia ensolarado
Onde as quatro da tarde nada dizia
Além de um velho silêncio, 
Ou em uma noite improvável,
Onde entre tantas vozes,
Ao fundo nada mais se ouvia,
Do que meros roncos celestiais. 

Se há sopro de desejo
Sigo em direção ao mundo,
Posso apenas querer fugir,
Mas, ao final, apenas sigo
Lentamente, sem destino.

II

O desejo é o espelho da natureza,
Humana, real.
É como uma folha de uma árvore,
Frágil, insustentável. 
É a dança dos ventos,
É o aparente desengano, 
E o jamais percebido...
É o tão mais que estar. 

E o desejo é o ápice
Do que é demasiadamente humano, 
É o impasse elementar do dividido,
É a espécie do inaudito,
E o simplório do viver,
É o mero incognoscível,
É o nascimento da humanidade,
É aquilo que somos. 
(Antônio Alberto P. de Almeida)

Fonte da foto.