sábado, abril 26, 2014

[Poesia] Três.

Três.

Defronte e por dentro,
Há uma mancha acinzentada,
Que circunda as bordas,
No ócio destas horas,
D'onde há poesia.

Penso.

Resguardo as palavras,
Sobre os episódios derradeiros.

Concluo.

Escuto uma velha sabedoria que diz que
Os fundamentos das mudanças devem-se
Aos eventos impactantes e inesperados.
Arrumar permutas eles podem.
Entretanto, suspeito
Que na maioria das vezes,
É justo quando nada acontece,
Que tudo muda.

(A vida é mais imprevisível
Do que parece.)
(Antônio Alberto P. de Almeida)

terça-feira, abril 22, 2014

[A Reflexão e o Cotidiano.] Defronte a mim o mar.


Defronte a mim o mar.
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Hoje as sensações fluem de forma serena. Sinto-me, como se estivesse em um fim de tarde, ainda que seja noite,  defronte ao mar d’onde escuto levemente a sinfonia do ir e vir das ondas. O dia é claro, há silêncio e plenitude. Como se o momento nunca bastasse, isso me põe então a refletir: mergulho nesta leve sensação, de onde tento tirar palavras. A palavra que eu tiro é crescimento e acho que ela basta. Não penso em outras. Não há outras. Penso em quão doloroso é avançar no entendimento e na aceitação da vida. Ao entendermos e aceitarmos, também fazemos renúncia. Renunciamos, então, àquelas coisas nocivas que insistíamos em carregar conosco. Então, ficamos mais livre, e por estarmos mais livres,  surgem-nos a possibilidade de novos encontros, de novas idéias, e de sermos sujeitos da nossa própria história com mais veemência, de modo que também passamos a ter  uma maior responsabilidade com as nossas próprias escolhas.  Não mais, então, passamos a nos flagelar por aquilo que vem do outro, nem a culparmos a infelicidade dos acontecimentos pelas nossas tempestades. Entender, aceitar, renunciar e optar, é também poder compreender com mais profundidade o dinamismo do viver. E quando passamos a entender com mais profundidade estes processos, em verdade não ganhamos um maior domínio sobre eles, apenas passamos a aceitar a intempérie das dos seus quadros imprevisíveis que se sucedem dia após dia em nossas existências.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

segunda-feira, abril 21, 2014

[Poesia] Sobre a Errância do Desejo - Ou Alguns Versos Sobre Uma Errata.


Sobre a Errância do Desejo.
Ou Alguns Versos Sobre Uma Errata.

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I

Já não era mais as sete ou as oito,
Nem as nove, nem as dez, tampouco as onze.
E sim quinze, dezesseis, vinte e vinte e um.
Números que se sucederam na velha folhinha.
Para dizerem-me vagarosamente,
Que não a havia a suposta ternura
Nem uma defluência de olhares.
Muito menos um corpo inebriante.
Ou algum tipo de  “bela alma”
Dona de “fragrância” alguma.
Opto por poupar as minhas palavras.
Sequer houve fantasia.
Muito menos um desejo,
Apenas mais uma poesia.

II

Há um embaraço a ser desvelado,
Na predileção pelo ofício dos versos.
Inventamos o que não existe.
E existimos naquilo que inventamos.
Acreditamos no que não cremos.
E somos naquilo que acreditamos.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

Fonte da Foto.

domingo, abril 20, 2014

[Poesia] O despertar do desejo.


O despertar do desejo.

Às três,
Às quatro ou as cinco.
Ponho-me em passos ligeiros.
Os dias são ríspidos.  
Nostalgia? Há.
Da época sinestésica,
O sentir da sinestesia de outrora
Soa seco,
Partido, ressecado.

Entre cinco e seis,
O sol se põe.
Interposta entre a minha alma,
E a alma do mundo,
Está a palidez do escuro.
Os poros cercados pelo gélido.
E o interior levemente ocupado,
Os ponteiros vagam,
Entre estes corpos próximos
E pensares distantes.

Se é sete ou oito,
Perco o senso,
Vagarosamente parti do tempo,
O corpo brusco e fatigado,
Atira-se sobre uma velha poltrona,
Uma sábia velha anciã de tantas idas.
[Sem vindas.

Imediatamente,
Torno-me a já não ser.
E a já não estar.
Adiante a palidez se desfez,
Borrões vibrantes defronte!
E uma terna manhã insonsa.
Metamorfose em mim, prestes.
E a miséria humana, lasciva.
E ti, mera coadjuvante, em frente,
Compondo, mais horas insignificantes,
Inominada era,
Tão Desimportante.
Frágil, relés coadjuvante.

Bastaram simplórios enlaces,
De uma defluência entreolhares,
Para desvelar-se em ternura,
Insolúveis enigmas àquele instante..
E a metamorfose lasciva,
Despertou-se no meu âmago,
Quando nomeou a ti,
Protagonista d’um desejo.
Que parte de mim,
E fantasia sobre o a sua alma,
Dona de uma fragrância
Tão levemente inebriante...
E sobre o seu corpo,
D’onde a delicada aparência,
Incita-me a ir em direção,
Aos seus cálidos lábios.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

Fonte da foto.

quarta-feira, abril 16, 2014

[A Reflexão e o Cotidiano] A Liberdade e o Desejo.

A Liberdade e o Desejo.
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Hoje estive refletindo sobre a sustentação do desejo, algo que para o senso comum tem aparência simplificada, mas que envolve muito mais do que a sua superficialização poderia indicar. Não pretendo esgotar as reflexões acerca da temática, que pode envolver  um aprofundamento muito maior do que o que eu exponho aqui, mas pretendo levantar alguns itens sobre o mesmo. Primeiro, penso em como isso envolve uma determinada responsabilidade que diz respeito a sermos optantes pelas nossas escolhas e a termos posicionamento diante da vida e diante da nossa própria história. Recordo-me, então, de Sartre: "O importante não é aquilo que fizeram de você, mas o que você faz daquilo que fizeram de você." Acho que esse aforismo resume, inicialmente, este ponto. Adentrando neste aforismo, penso em o quanto se posicionar envolve conflitos internos e externos, rupturas, caminhos novos, por vezes tortuosos, mas mais dignos, acredito, apesar dos poréns. Digo dignos, pois bancar nossas escolhas desejantes, é de onde pode partir uma vida gratificante. A partir dela, que escrevemos as nossas linhas próprias e podemos chegar, de fato, no lugar onde queremos. Volto para o existencialismo e cito Sartre novamente: "O Homem está condenado a ser livre", acrescentaria apenas uma frase para completar esta reflexão: "O Homem está condenado a ser livre quando é sujeito do seu próprio desejo."
(Antônio Alberto P. de Almeida)

terça-feira, abril 15, 2014

[A Reflexão e o Cotidiano.] A Profissão e o Psicólogo.

Há algumas semanas venho pensando em algo que me incomoda. Tenho pensando em como certas pessoas se utilizam das abordagens ou dos campos de trabalho em psicologia de um modo, no mínimo, inadequado. Refiro-me àqueles que se apropriam das teorias e querem criar estilos de vida ou religiões em cima dos mesmos. Podemos sim, ser apaixonados por aquilo que fazemos, precisamos crer, descrer e optar e tudo isso implica em posições políticas, escolhas epistemológicas, etc. Mas, não podemos deixar que a partir disso ocorra uma alienação no nível que eu citei acima. A escolha, profissional, não torna ninguém melhor do que ninguém, nem eticamente, nem enquanto pessoa. Por mais que se acumule saber, por mais que estudemos, crer no saber total será sempre um engano. Parece que algumas vezes esquecem-se de um ponto elementar e básico acerca disso, o saber, em especial na clínica, será sempre aquilo que vem da individualidade e da história do outro e esse sempre é o começo.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

sábado, abril 12, 2014

[A Reflexão e o Cotidiano.] A Relação e o outro.

Dando continuidade as mudanças no blog, inauguro esta nova seção, na qual pretendo expor alguns pensamentos que me surgirem no decorrer dos dias. 
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A Relação e o outro.
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Nesta tarde estive pensando nas relações contemporâneas, em como tudo se faz e se desfaz com uma liquefação tão intensa. Observei e analisei tantos casos em que o outro se declara responsável por si mesmo e que isso, para ele nessa posição, implica numa negação quase que absoluta daquele outro com o qual ele está se relacionando. É mesmo um narcisismo bastante intenso e que há tempos vem me incomodando. Pensei: será que essa é a norma? Será que eu deveria ser assim também? Será que é preciso mudar? Cheguei a conclusão que não, que eu acredito no relacionar-se que não se restringe ao valor que eu posso suportar daquilo que eu faço e que implica um outro, mas em uma determinada responsabilidade que eu adquiro ao efetuar uma relação. Isso não implica, claro, numa ideia de que todas as minhas escolhas dependam das consequências e do outro, mas acima de tudo numa posição ética no relacionar-se de que eu não posso tudo, assim como o outro não pode tudo.  E é assim que se constrói uma relação, na minha concepção. 
(Antônio Alberto P. de Almeida)

domingo, abril 06, 2014

Mudança de "Universo das Palavras Perdidas." para "No Galpão das Entrelinhas."

Mudança de "Universo das Palavras Perdidas." para "No Galpão das Entrelinhas." 
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A vida mostra-nos em determinados momentos que determinadas coisas não cabem mais, enquanto outras necessitam e podem se reinventar. Por estar sob influência das vivências em São Paulo e de todas as transformações proporcionadas pelas mesmas ao longo deste tempo, algo em mim se modificou profundamente. Algo que incidiu diretamente sobre a forma como eu enxergo e vivencio o ato de escrever e a poesia. A escrita é mesmo o espelho da vida. Sendo assim, não sentia que ela era contemplada pelo blog da forma como eu a vivencio na atualidade e  decidi reinventá-lo. Muito mais do que uma era modificação, ou de uma mera etapa transição , espero que as palavras possam continuar contemplando pessoas, a partir deste novo recomeço. 

quinta-feira, abril 03, 2014

[Poesia] Olhos.


Olhos.
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Uma velha e notívaga viela 
Ao passo dos sapatos.
Ao avistar dos olhos,
Ao som dos ouvidos.
Três vias silenciosas e 
Duas cheias de latas velhas... 
Seriam estes enquadramentos
De borrões em movimento, 
Das promessas de outrora 
Ou a libertação taciturna disso tudo?

A liberdade é o mito do humano.
Falaram-nos quando aqui chegamos, 
Ao ponto de compreender alguma coisa, 
Que estaríamos condenados a ela,
Como os pássaros estão condenados ao céu. 
Era mentira deste mundo utópico!
É ela que nos condena, 
A estarmos dentro do seu cárcere,
De chão gélido e incerto...
De janelas brandas e incertas,
Da incerteza certa. 

Quem dá passos, ruma.
Quem não dá, também.
O corpo se vai por este 
Pântano de temporalidades  
Em meio a toda essa tralha,
Entre silêncios e latas velhas.
Pr’onde os olhos desejam.
É o velho ver-no-mundo.

E se transitei pelo ver-no-mundo,
Pela utópica liberdade de velhas vielas 
De latas velhas, pântanos e pássaros,
Pelas janelas de paisagens incertas, 
Por todos os sentidos e pela ausência deles, 
Pelos corpos jogados a estes borrões diários, 
Dissertava de uma simplória forma sobre o amor,
Sobre a luz dos olhares d’onde há sentido...
Sobre aquilo que dignifica as temporalidades, 
Seja isto as quatro tarde de uma terça incerta,
Ou dentro das longas madrugadas brandas,
Ou em prantos. Ou em poemas, romances.
Ou em todos os cantos. O amor está em todos os cantos.
Dissertava sobre a banalidade mais terna da vida.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

Fonte da foto.