quarta-feira, fevereiro 29, 2012

[Poesia] Além mar.




Além mar...

Certa noite, chuvosa, mas plácida, de março...
Carolina comenta com seu amigo:

Amigos, vêm e vão como ondas...
Poucos ficam para além de espumas...
Meu mar é forte, bravio,
Espumas muitas contra o Forte,
Mas poucas são as estrelas e conchas que ficam... com brio.
Meu olhar segue para o norte...
E se perde na imensidão... de amizades de além mar...

E Antonio, seu filho-amigo, explana:

Algumas ostras, quando se abrem, 
Você percebe que vieram sem pérola...
E durante todo o tempo... vazio.
E você acreditava que ela era um ser especial...
Então, elas se assustam e retornam ao mar,
Para ir a outras praias...
D'onde possam viver sem brilhar...
Um vazio preso, novamente.

E eis que chega março...
A chuva... tempestiva.
As ondas... fechando o verão.
Quantas estrelas despudoradas 
Se agarram aos bancos de areia?
Por mais que a praia inunde,
Por lá, elas sempre estão...

Poucas são as estrelas que compreendem
Que o céu pode ser mais belo
Quando se é única...
Ser estrela do mar
Não é ser só do imenso...
É residir num espaço pequeno...
D'onde a luz é complemento.

Doce mar distante!
Costumam chamar de "a"
Sentimentos não precisam de complementos...
E ainda sim 
Suspira-se o amar
Em toda a exuberância da sua existência...
(Antônio Alberto P de Almeida e Carolina Grant.)

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

[Poesia] Quando o amor acaba.

O que mais basta neste mundo?
Se no amor de tantos segundos
Que já não sacia o muito, nem o além.
Há o fervor daquilo que finda
Sempre prestes a se imortalizar 
Na última impressão
De quem vai
E para quem vem.
(Antônio Alberto P. De Almeida)


quinta-feira, fevereiro 09, 2012

[Conto] A Abóbora, o relógio e a bíblia.




A Abóbora, o relógio e a bíblia.

Abandonei a minha antiga casa há muitos anos. Como meus pais prosperaram economicamente, passei a habitar um condomínio de classe média. Este se debruçava ao fundo de uma rua sombria. Dentro dela havia apenas um pouco de comércio informal, que servia aos próprios moradores da região. Até os transeuntes eram raros. O grande bloco de pedras era todo pintado de laranja e carinhosamente havia sido registrado como “Roça do Joaquim”. Tinha este nome, porque se comenta que antes ali havia uma casa. Uma casa que desabou. Diz a lenda que nesta tragédia, morreu um único morador: o Seu Joaquim. A mesma conta que ele convivia apenas com a própria plantação de abóboras e com um porco de estimação.
Logo no início da minha mudança, cheguei a me espantar com aquela grande exposição épica. Era possível encontrar de tudo ali. De políticos conservadores à combatentes comunistas. Mas ainda havia algo que  estava destinado a descobrir. Tratava-se do grande símbolo de toda esta comicidade. Refiro-me a uma espécie de anciã. Que transcendia tudo já visto e existente, entre as coisas do mundo e dos homens. A sua pele bem alva e o seu sorriso misterioso eram marcantes. Ela se chamava Getulina. Apenas Getulina, ninguém sabia nada acerca do seu sobrenome. Morava no sexto andar. Sua convivência com os outros moradores resumia-se ao esbarrar-se dentro do espaço comum do condomínio. Recordo-me do meu primeiro encontro com ela. Foi numa tarde em que o sol vibrava de alegria. Ela se dirigiu a mim, em um tom sarcástico e quase ameaçador.
“Bom dia mocinho! Você é novo neste prédio, não é? Quer saber meu nome? Meu nome é Getulina! É em homenagem a Getúlio Vargas! Ele ainda será Presidente deste país!”
O elevador parou no sexto andar. Ela não saltou de início. Dez segundos se passaram. Quando a porta estava para fechar, ela abriu. Não me deu tchau. Apenas empurrou a porta e saiu ligeiramente. Me espantei com aquela criatura exótica e misteriosa. Quis saber mais sobre ela, nem os porteiros me contaram acerca da referida senhora. O mais antigo deles, me disse que ela havia se mudado para lá na ocasião já na inauguração do prédio, em 1976. Os meses se passaram não a vi mais. A curiosidade se retraiu no espaço diminutivo do tempo.
O meu segundo encontro foi na madrugada de um dia de outubro. Não me recordo exatamente qual. Voltava de uma festa, quando me esbarrei com ela no elevador, ela carregava três sacos do Bompreço. Certamente fazia supermercado de madrugada, pensei. Notei que havia apenas uma bíblia, um relógio e uma abóbora dentro destes. Não entendi. Estava meio tonto e aéreo, quando de repente, ela me retirou do meu estado de embriaguez com um grito:
“MOCINHO!”
E depois outro:
“MOCINHO!!”
E ainda um terceiro:
“MOCINHO!!!!”
Recuei dentro do elevador, prestes a enfartar, quando ela aproximou a sua cabeça da minha e disse:
“VOCÊ! VOCÊ! VOCÊ! Ah... Você eu já conheço. Meu nome é... meu nome você já sabe. Hoje eu tenho algo a te contar. Tá vendo esse relógio aqui? ESSE AQUI. Eu acabei de comprar. Não mudo a hora do meu relógio. Esse negócio de horário do verão é invenção dos homens! Eu sigo a hora de Deus!”
Alcançamos o sexto andar. Ela parou por dez segundos novamente. Saiu quando a porta ia se fechar e não me deu tchau Naquele instante, ainda assustado, oscilei entre a constatação de que precisava mudar o horário do meu relógio e a perplexidade da forma de agir daquela senhora excêntrica. 
Nunca mais a vi depois daquele encontro. O que aconteceu com a pobre anciã, ninguém sabe. Nem Dona Ana, que ainda mantém uma barraca de frutas em frente ao condomínio, e que posteriormente descobri, era a pessoa mais próxima àquela senhora. Quando nada se sabe, muito se comenta. As hipóteses e boatos, até hoje, são muitos. Há quem diga que ela ainda vive reclusa, outros comentam que os filhos vieram buscá-la. Há quem fale também que ela era uma bruxa ou uma grande artista, e estava a enganar a todos. Eu, eu me resigno a acreditar que ela foi engolida pelo próprio tempo.  Ou levada a um encontro com Deus. 
(Antônio Alberto P. de Almeida)