domingo, maio 20, 2012

Aforismo Poético Nº 51 - Porque quando há intensidade, falta o mundo.

(Tela de Edgar Degas - Dançarinas no Azul.)

Me perco no movimento contrário do mundo, quando percebo que a idéia da intensidade me remete a um prazer profundo, e o tédio da normalidade me condena ao asco e o espanto.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quinta-feira, maio 17, 2012

O Conto Inacabado 4- A espera de João.


Quando João se levantou, naquela manhã ensolarada, algo parecia diferente. Havia uma estranha vitalidade nas coisas. Os móveis pareciam brilhantes, cheios de cor, embora estivessem tão empoeirados, como nos outros dias. O pão com queijo, tão habitual, parecia remeter ao néctar dos Deuses. Não sabia do que se tratava, mas rapidamente notou que algo de bom lhe esperava. Algo parecia que iria mudar a sua vida para sempre. Sentiu que havia a proximidade do amor. Sentiu que este se encontrava em alguma parte daquela cidade, mas escondido. Como uma chave que repousa debaixo da estante da sala. Olhou para os lados e se viu em solidão. Foi até a janela, buscou olhares nas janelas dos outros prédios, mas nada encontrou. Decidiu esperar, então, que a vida resolvesse o enigma. As horas escorreram dentro do tempo. Do transporte ao trabalho. Do trabalho ao almoço. Do almoço ao trabalho. Do trabalho ao bar. Do bar até o final da noite. Dentro dos tão infinitos atos encenados da vida, diversos passos foram dados, a espera da suposta inesperada. Esbarrou-se com as vozes vazias. Olhou atentamente para os rostos, cheios de maquiagem.  E, ao final, nada foi encontrado. Embora tivesse repousado submerso nos escombros da expectativa, ele continuava a ter a franca convicção de que o amor estava próximo. Se  aquilo havia sido apenas um truque da vida, que por vezes, se vê disposta a embaralhar as setas, para rir, ao fazer o ser existente andar em círculos, ou se a sensação que lhe acometeu, tinha alguma razão especial, ainda não podia saber.  De certo, restava a convicção de que o amor simplesmente estava, em algum lugar, dentro dele. Se aquilo era algo fadado a ter um destino, só o tempo seria capaz de responder.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

terça-feira, maio 15, 2012

[Prosa] Sobre a memória dos amores.

(Renoir - La Promenade.)

Por vezes, é preciso desfazer-se das próprias mãos, ao atirar abraços em alguma caixa das memórias perdidas, para que as pernas não fraquejem diante do longo caminho que sempre existe defronte ao passado.Não fosse complexo, o presente é sempre uma dança entre o que já foi e o que está por vir. É inconstante. Imprevisível. E o que fazem os afetos, nesse vai e vem dos movimentos antagônicos? Se não, atuar, como se estivessem em um grande espetáculo de teatro, onde as cortinas se abrem e se fecham a todo instante? É como se o ser pudesse obter a esperança da mais bela e pura gota de profundidade, mesmo diante do mais terrível dos abismos, onde quem não tem asas, não deveria se arriscar a estar...
(Antônio Alberto P. de Almeida)

segunda-feira, maio 14, 2012

[Poesia] A leveza que vai ao mar.






Jogo meus pés ao vento,
No lugar onde falta a enxada
Piso na areia e nas rochas
No lugar onde sobra o nada.


Se tudo fosse jardim,
Não me faltariam rosas
Mas se sobrassem rosas
Faltaria sentido na vida.


Deleito-me no esquecimento,
De algo que guarda em si
A estranheza do ar do outono
E desejo a defesa da incerteza
Perante ao ludibriar-se de verdades. 


Mas, se o que sempre sobra,
É um par de chinelos,
Uma boa dose de vento,
Areia, rochas e poucas flores. 
Sinto estar na direção errada.


Que farei, então, deste caminho.
Se o par de óbvios, me entedia.
Se todas essas pegadas estranhas,
São contempladoras da idéia do
Participar do lugar nenhum.


(Há uma insuficiência na preguiça,
Para o tamanho dos meus sonhos...)
(Antônio Alberto P. de Almeida.)

quarta-feira, maio 09, 2012

Aforismo Poético Nº 51, Sobre o amor.



Há sempre aqueles que se perdem do caminho, por onde segue o resto do mundo, quando partem em busca dos amores...
(Antônio Alberto P. de Almeida)

sábado, maio 05, 2012

Aforismo Poético L - Os olhos passageiros.

(Camile Pissarro - Boulevard de Montmartre, na manhã de inverno.)

Se as pessoas olhassem mais para os lados, talvez existissem mais amores no mundo. É uma lástima, que o tempo sempre seja tão ausente, para esta possibilidade. Os olhares são efêmeros, e quando se vão, não voltam nunca mais...
(Antônio Alberto P. de Almeida)

sexta-feira, maio 04, 2012

[Prosa] Sala 34.



Se pouco sei, posso muito idealizar. Se muito sei, não idealizo. É a minha sina poética.Como se não bastasse o caminho sem rumo, de um mundo bastardo. Ainda sobram os amores platônicos, que fazem e se desfazem com uma velocidade intensa. Não que eu esteja disposto a exercer o ultra-romantismo, de lá, quero distância. 
Quero mesmo, é a poesia da pele deslizando sobre o sonho dentro da vida. Mas, por ora, é difícil. São tempos difíceis para os sonhadores. Desejar o imprevisível, não garante o meu saber sobre ele. Muito pelo contrário. Me afunda na minha própria ignorância de ser um pobre mortal, deitado sobre o barco a vela, que obedece as ordens do vento, e vai atrás do paraíso perdido, sem saber sequer se ele existe. 
É como se ora, o mar, pudesse ser cômico, ora trágico. E assim é a vida. E assim são os amores. E assim é se apaixonar. E também transformar desejos em segredos, como se de alguma forma fosse uma infração grave, revelá-los perante o mundo. Por ora, talvez seja. E talvez todos eles, sejam um pouco assim. Pois muitos, surgem da nossa própria subjetividade pessoal, da nossa fantasia.Nunca há garantias do afago da compreensão. Tampouco da reciprocidade. 
Penso que há um pouco de loucura nisso tudo. Mas não é a loucura, que as pessoas costumam ver como loucura, é a loucura de saber que há algo em nós, que pode não fazer sentido para o outro. Por mais que sempre saibamos a razão que nos acomete. Nem sempre esta coisa, tão funda, é fácil de ser alcançada. É preciso esforço, interesse. Creio que essas coisas, por si só, já são atos que de alguma forma, estão relacionados ao amor. Então, eu não sei. Talvez os desejos escondidos, emerjam, quando tem que emergir. Ou não. Talvez demande habilidades, que eu não tenho, e eu queira me livrar da culpa, criando uma fantasia. Só o tempo me dirá, qual das minhas proposições estava certa, por ora, eu simplesmente não sei. 
(Talvez pense demais nessas coisas.)
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quinta-feira, maio 03, 2012

[Poesia] A carta sem destinatário.




Andar distraído, pelas ruas vazias
(Que estão sempre cheias de movimento)
É uma pedra no caminho dos apressados.
Bendita esta época é, entre os homens.
Rodopiar, agora é pouco.
Voar, ninguém quer.
Tirar os pés do chão, grande perda de tempo.


Olha, lá vem a chance que vale sua vida.
Corre, pega. Lá vem outra. Lá vem outra.
Nem o mundo se aguenta mais.
Onde tudo é pouco, nada basta.


Emprego, salário, profissão.
Lá vem um carro na contramão.


Amanhã é o último dia do prazo.
Corre, corre. Pêên! Pêên! 


Ainda que as coisas sejam assim,
Desde que o mundo é mundo
Algo ainda permanece intacto
Aplaudo a sua brava resistência
À toda a sujeira
À todo o sistema financeiro
À todos os seres ligeiros
Á toda sedução da sociedade de consumo


Sobre que coisa misteriosa, escrevo?
Escrevo sobre o amor. Ele não gosta de previsões.
Ele gosta mesmo é de encontrar
Aqueles que andam distraídos por aí.
(Antônio Alberto P. de Almeida)