quarta-feira, maio 29, 2013

[Poesia] A semelhança entre as roupas velhas e os amores velhos.


Assim como as roupas velhas
São esquecidas nas gavetas
Até que as cores desbotem
Até que o tempo corroa 
Linha por linha do tecido
E não reste mais nada.
Os amores velhos
Também são esquecidos 
Não nas gavetas, mas nos porões
Dos corações. Onde o tempo corrói 
Afeto por afeto tecido
Até o dia em que não resta mais nada,
Se não mais que uma vaga lembrança,
Daquilo que um dia foi coisa vivida...
(Antônio Alberto P. De Almeida)

Imagem: releitura de Van Gogh feita por Ana Luísa Luz.

sexta-feira, maio 24, 2013

[Poesia] O afeto que afeta.


I

Ao ler o mundo dos afetos,
Torno-me profundamente risonho.
Meu riso é o riso tragicômico.
É mais triste, do que feliz.
Pois noto que afeto profundo...
Afeto profundo é coisa rara!
E ofertamo-nos  a poucos
À poucas pessoas
E poucos momentos
Alguns destes encenam risos
Não na tragicomédia
Mas na pura leviandade
De quem se fez tão raso, mas tão raso.
Que nem acredita que isto possa ser
Elemento existente na realidade.

II

Afeto profundo não pesa
Como a palavra que guarda em si
“Profundo”
Profundo soa como um fardo...
Como algo descontrolado.
Mas se mudarmos o ângulo de visão
Para o desejo em vida vivido intensamente
Dure isto um dia ou dez anos.
Torna-se coisa tão leve....!
Pois, afeto profundo, é efêmero.
E assim como a própria vida
Não se sustenta para a eternidade.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

Fonte da foto.

quinta-feira, maio 23, 2013

[Poesia] Considerações sobre o teu silêncio.



Considerações sobre o teu silêncio.

O seu ser em plenitude de silêncio 
Promove em mim alguns ruídos
Com os quais faço nascer este poema
Onde desejo metaforizar sobre o nada. 

Faz-se escrever versos sobre o nada
Nada há também para descrever. 
É como fazer nascer um poema
Que é, ao mesmo tempo,
Algo meio-cheio e meio-vazio
Meio-cheio de tudo,
E meio-vazio de sentido.  

Se já escrevi sobre o nada
E sobre o próprio poema
Resta-me escrever e descrever 
Qualquer coisa que responda
Os meus próprios questionamentos 
Se há razão neste silêncio. 

O silêncio é a retaguarda do sentido
Que traz dentro de si razão 
E metaforiza o não dito
No próprio ocultamento de si
Ou no deslize que o faz existir
Em cima do barulho da vida. 

Se viver é escutar silêncios variados.
Paro, então, de escutar o teu próprio. 
E recordo-me de como é estar em vida. 
Onde já escutei silêncios de desprezo.
Outros onde imperava a distância não desejada. 
Alguns com muitas palavras que nada diziam. 
Outros que gritavam sem ruídos. 
E há também os que estão do outro lado. 
Os que nasceram na própria 
Incompletude do ser humano
Por não haver mais uma palavra 
Que fizesse algum tipo de sentido
Por algum estranhamento
Que leva o mundo a rimar
Caminho com descaminho. 
(O silêncio é sempre um desencontro.)

Termino, então, a minha breve reflexão.
Volto a escutar o teu silêncio
Noto que este está para além de mim.
Logo, o escuto apenas em observação. 
E permito-o que exista em plenitude.
E se o teu silêncio faz ruídos em mim?
A partir deles faço nascer poesia. 
(Antônio Alberto P. de Almeida)

domingo, maio 19, 2013

[Poesia] Uma nota sobre a vida.





A vida retira-se do papel 
De ser a singela deslumbrante 
Desenhista de singularidades
Quando num instante
Por falha, teimosia, sadismo
(Que o "destino" desculpe-me.)
Ou lapso do inconsciente
Se põe a repetir e inscrever 
Velhas montagens antigas
Nas plenas cenas efêmeras
Onde reinam as supostas novidades.
(Antonio Alberto P. de Almeida) 

sábado, maio 18, 2013

[Poesia] Cantando na chuva.

(Releitura da obra de Van Gogh feita por Ana Luísa Luz.)

Conto-lhe a história de um velho
Que relatou-me a história de um jovem
Que falava de amor. 
Disse-me o velho
Entusiasmado, cheio de emoção,
Com os olhos em forma de sol. 
"Falo de um jovem que sentou
Ao meu lado no banco da praça
Carregava um guarda-chuva,
Dançava sobre a chuva,
Inspirava-me com a sua vitalidade.
Por alguma razão ele se aproximou de mim...
Perguntou-me o motivo d’eu estar ali
Respondi que a minha amada faltava.
Que o amor me faltava em vida.
Que estava triste e solitário.
Então, ele me disse:
"Este guarda-chuva vermelho está vendo?
Ele fala de amor. Com ele dancei e amei.
Por isso hoje eu danço e canto...
Toda vez que a chuva vem...
Não espere o amor de além...
Há amor mesmo no aquém. " 
Meu caro amigo não falo do passado
Isso não faz mais do que duas semanas
Este jovem de alma velha devolveu-me
A vitalidade da nostalgia esquecida
De que eu ainda posso dançar em vida
Hoje danço e canto, não com o 
Guarda-chuva do jovem, 
Mas com as velhas fotos do meu passado, 
Com as quais me reconciliei. "
(Antônio Alberto P. de Almeida)






terça-feira, maio 14, 2013

[Poesia] Três meses em um poema.




Três meses em um poema. 



Era um final de tarde quando
Aterrissei em meio a uma tempestade
Quando adentrei na minha nova moradia
Já era lá para as tantas das dez da noite.
Naquele momento sentia-me submerso na
Angústia que o inesperado proporcionava
No dia seguinte, cidade cheia d'água
Falta de luz por cinco horas
Na semana seguinte mais duas vezes
Entendi, naquele instante do tempo,
Que a tempestade estava para além do real
Que o simbolismo me atravessava com profundidade
Os dias logo tornaram-se cheios. Cheios de tarefas.
Cheios de mudanças. Cheios de cansaço. Cheios.
A burocracia atravessou o tempo
Guardando em si o gelo em demasia.
Mas a cidade maior que o mundo
Aquela fascinava-me no 
Meu mais profundo âmago.. 
O tempo passou a correr veloz.
Um belo dia a tempestade cessou.
A água escorreu - eram dias de céu claro.
Dias tão longamente desejados!
Dias onde a beleza nasceu em forma de vida.
Dias onde o próprio outono desfez-se 
Em prol de uma primavera intensa.
Dias em que o outrora irrealizável conhecer do mundo
Passou a operar sobre a essência dos segundos.
Dias onde o instante do encontro fez-se profundo.
E que lição poderia eu escrever 
Neste parco marco temporal? 
A de que a luta intensa tardará a cessar
Talvez não cesse nunca, pois vivemos...
Mas que o sonho... este sim!
Este deve servir de guia 
Nas nossas andanças pelo mundo.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

domingo, maio 12, 2013

[Poesia] A irrealizável metáfora incontida ou três estrofes banais sobre o nada.


A irrealizável metáfora incontida ou três estrofes banais sobre o nada

A irrealizável metáfora incontida 
Delineia traços nas paredes 
De cada ser que aqui habita
E guarda o intimismo do em si mesmo
Que se faz distante do mundo

A irrealizável metáfora incontida
É o deslocamento lento do retrato íntimo 
Que como um espelho faz imagem na vida 
E omite-se do registro do apenas em si 
E passa a gozar dos ares profundos da cidade. 

A irrealizável metáfora incontida 
São os disfarces do mundo
Recônditos n’uma espécie de véu profundo 
Onde o literário sem palavra expressa
Se expressa.
E é por isso que também se vive poesia.
 (Antônio Alberto P. de Almeida) 



sábado, maio 04, 2013

[Poesia] A Cena do olhar intimista Ou O Olhar em duas cenas.



A cena do olhar intimista Ou O Olhar em duas cenas.

Lanço um olhar sobre a janela entreaberta
Onde observo outras portas
Outros olhares, outros corpos
Olho, então, para cima
D’onde vejo grades marcadas
Que ardem na intensidade da luz
Mudo a direção da visão
Olho para  baixo e noto o chão
O limite entre mim e o mundo
E se olho para dentro?
Se olho para dentro encontro vastidão
De intimismos e um pouco de ilusão
Como se um pouco de ilusão 
Fosse a parte mercenária do existir
Que se faz necessária 
Para elevar a matéria da vida
Para o patamar dos sonhos
Para o patamar das fantasias. 

Interrompo a sequência
Vejo, então, o outro lado
Observo mais do mesmo
Das manufaturarias mundanas
Dirijo-me a estante e ponho as mãos
Sobre um velho espelho empoeirado
Lanço-o sobre a minha própria face
E observo atentamente o meu olhar
D’onde se desenha aqueles 
Outros Olhares do mundo
Não tarda vejo a minha própria alma
Vista pelo olhar para dentro partindo de fora
Atravessado pelo sopro do mundo sinto algo
Que se parte diante das cores do vento
Noto, então, a estranha força elementar
Do (vi)ver(verei) que sublimemente 
Repousa entre o olhar e o desejo.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quarta-feira, maio 01, 2013

[Poesia] Navegação em cinco atos.



Navegação em cinco atos.
-
I- O Vento e as canoas.

E o vento sacode as canoas 
Dos habitantes dos rios sem mar 
E o vento como um bom pintor 
Desenha algum movimento ilustrado
Diante das pequenas armações
De madeira guiada pelos seres
Que ali constroem os seus mundos. 

II- A cidade sem rua.

Lembra-se, então, que há cidade. 
Várias canoas. Muita água.  
[não há mais rua.
A rua não existe.
Só prédios em formas de ilhas
Canoas com indivíduos 
Indivíduos resguardados
Em forma de ilhas.

III-As canoas e o rumo.

E, então, observam-se canoas. 
Sempre a seguir a aparência 
Ditada pela cauda do rio
E estão sempre indo, indo e indo.
E indo, estão sempre se chocando. 
Como se tudo se resumisse
Em um eterno espelho do tocar-se
Onde as imagens da beleza se inscrevem.
Onde os olhares profundos se fitam.
Onde os prazeres mundanos se fazem.
Onde as banalidades pueris ilustram
Alguma espécie de cenário coadjuvante.
Onde a vida, parece então, acontecer...
Quem neste mundo ousaria afirmar
De que direção fala-se nestas palavras?
Do vento, da correnteza?
Do desejo?
Ou de alguma outra substância simples 
De expelir do sopro da vida?
Que dita algum tipo de direção?

IV-As canoas e os portos.

Mas, logo, ao navegar, navegar, navegar.
Surgem aos olhares dezenas de promessas de portos
Poderia haver o lamento do mais imaginário
Do que real. Se a própria vida não fosse
Um eterno alento temporário
Na inscrição da efemeridade mundana.
E as canoas estão sempre a retornar
 Ao rio sem mar da eternidade salutar.

V-As canoas e o porto do poema.

Quem ousaria afirmar no alto
Que viver é preciso e navegar não.
Ou navegar é preciso e viver não.
Se se há coisa bela neste mundo 
Falamos da sua indissociação? 
O poema aporta na eternidade
Os homens não, estes continuarão
Sempre navegando. 
(Antônio Alberto P. de Almeida)