Duas desrazões - O Tempo e o Desejo.
I
Nesta cidade sinto que
Semanas passam em segundos
E não mais que de repente,
Parece que na verdade,
Tudo já se passou há um ano.
(São as desrazões do tempo.)
II
E o desejo que eu desejei,
Soa levemente insatisfeito.
Passou... mais rápido,
Do que esta primavera.
Diria que foi uma bela promessa,
De flores que sucumbiram,
Antes que viessem ao mundo.
(São as desrazões do desejo.)
O tempo do desejo,
Não é o desejo de tempo.
Eis uma criatura emergente,
Que passa tão de repente,
Que já não saberia dizer,
Se diante do mundo,
Ainda anseio por você.
(São as desrazões da vida.)
(Antonio Alberto P. de Almeida)
É na fresta deixada pelos afetos que não se inscrevem, que debutam as palavras que partem ao mundo.
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quarta-feira, outubro 15, 2014
quarta-feira, outubro 08, 2014
[Narrativa Sobre Um Desejo] O Desejo é Uma Tarde.
E outra sobre o Desejo.
-
O Desejo é Uma Tarde.
-
I
A luz que adentra levemente pela janela no fim da tarde lembra-me do meu desejo e de como a vida passa rapidamente. Um dia, uma semana, um mês, de repente é um ano, dois, três. Tudo isso, tal como essa tarde que logo passará e dará lugar a noite, traz um ar de efemeridade aos afetos e as sensações. Lanço olhos ao passado e observo as poesias que se eternizaram ao longo do tempo, escritos feitos em função das mais diversas histórias e circunstâncias. Hoje eles são como retratos empoeirados guardados numa velha gaveta. Palavras também são lembranças, se não visuais, de sensações.
Retiro os meus olhos das gavetas entreabertas e lanço-os para o que me ocorre nos dias atuais. Observo o último mês e vejo o quanto dissertei sobre o desejo. Sobre um desejo em particular, absolutamente particular. Quando eu escrevo sobre o desejo, não escrevo nem para alguém, nem sobre alguém, apesar do desejo sempre estar em relação, ele não pertence ao outro, mas a mim. E continuo a vagar sobre o cotidiano. Penso em como o desejo é transitório, comporta as mais diversas ambivalências e, de forma alguma, é eterno ou indestrutível. Ele é mesmo persistente, arredio em relação às nossas próprias vontades, mas também é rebelde, encontra outras vias, outros caminhos em relação às possibilidades da vida, não por nossa vontade, mas por sua vontade própria. Por fim, penso que é o desejo do desejo que determina o seu verdadeiro destino.
II
O desejo é irmão da tarde ensolarada,
Cujos raios adentram vibrantes pela janela.
E nos fazem sorrir por nada,
Ao lembrar quão bela é a vida.
Mas tão logo a tarde passa,
Quem ordena as direções é a noite,
A lua pode estar bela,
As estrelas inspiradoras,
Mas não há mais nenhuma garantia,
Sobre o qual será o destino do desejo,
Quando retornar à tarde ensolarada,
Ao findar das horas noturnas,
E depois da longa manhã que a antecipa...
(Antônio Alberto P. de Almeida)
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Narrativas Sobre Um Desejo,
Poesia,
Prosa
segunda-feira, outubro 06, 2014
[Narrativas Sobre um Desejo] Pequeno Escrito Sobre o Desejo.
E Outra sobre o Desejo.
-
Reflexões Pós-Aula de Psicanálise.
O desejo não pode ser apenas uma marca mnêmica. Parece ser algo mais. Penso se não se trata de uma marca na alma. Pensando no desejo... ele parece partir de um leve rabisco feito por um outro de forma despropositada e acidental. Um rabisco que, no início a gente não sente, nem vê, nem percebe. Um rabisco que aos poucos vai insistindo em continuar, em ser inapagável. O rabisco que é desejo não some na primeira semana, nem na segunda... permanece no sol e na chuva, no silêncio e na gritaria. E, de repente, eles se multiplicam. A alma fica impregnada por vários deles dispostos aleatoriamente E o tempo passa... e o que não se apaga, vai ganhando contorno, uma forma definida ali, outra aqui, e, então, algo parece se estabelecer , se definir. E diante de tanta arte, o que mais eu tenho a dizer? Que a vida parece uma criança travessa quando vem com essa mania de nos querer encher de quadros na alma.
(Antônio Alberto P. de Almeida)
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Narrativas Sobre Um Desejo,
Prosa
sábado, outubro 04, 2014
[Prosa] Da Natureza do Desejo.
Da Natureza do Desejo.
-
O desejo, por vezes, soa como algo tão tão ridículo... faz mesmo parte da sua natureza ter uma certa dose de desrazão. De desrazão e de impossibilidade de completude. Temos um absoluto desconhecimento acerca das suas origens. Como consequência este ser pode parecer estranhíssimo a nós mesmos, mas apenas até certo ponto, pois ele é um estranho intimamente particular. Estranho que amedronta, do qual nós queremos fugir, que gera angústia e também incerteza, pois o desejo, por mais sólido que seja, é filho da efemeridade e das intempéries do tempo, tudo isso se torna mais hiperbolizado quando falamos daqueles cuja natureza depende eminentemente de um casamento profundo com o desejo do outro para se realizar. Não existe “o desejo”, nem “um desejo”, mas os desejos que convivem em conflito ou não. Os desejos podem ser contraditórios, dependem da própria sustentação do ser diante da vida, de bastante força e também de uma dose razoável de coragem. Alguns ofertam uma longa e difícil caminhada para a sua realização, basta olharmos, num grau máximo, a história dos feitos dos grandes homens da humanidade. No fundo, no fundo, o que eu acho mesmo é que se nós pudéssemos dá-los vida própria e eles pudessem falar, zombariam bastante de nós, não uma zombaria negativa ou irônica, mas uma que se cessaria com a seguinte frase “Sou o seu impulso rumo a alguma coisa. Não lhe dou certezas, como a vida, mas quando estou em ti, na minha forma mais essencial, sou você mesmo, as suas lembranças, histórias, a sua singularidade. Sei que em certos momentos precisarei ser adiado, ou ainda parecerei mesmo inatingível, mas escute: escute-me, viva-me ou cale-se diante da sua própria existência. Não desista de mim para não desistir de você, ”
(Antonio Alberto P. de Almeida)
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Prosa
quinta-feira, outubro 02, 2014
[Poesia] Uma Nota Sobre a Vida.
Uma Nota Sobre a Vida.
-
I
(...)
Eu disse - é ridículo.
(Antes eu pensei na falta de senso, de lógica, de pertinência e tudo mais que pudesse dizer que ali não havia uma ligação mais concreta com a realidade. E tudo se resumia nessa palavra: ridículo.
Era como no poema de Fernando Pessoa
Mas em pleno século XXI, não há espaço mais para essas coisas ridículas. Nem para aquele velho escrito que assim soa também, além de meio distante, ainda que guarde uma lição de sabedoria e um sentido maior, mas, reitero, de outro século.
Não há espaço para poesias fantasiosas. O tempo unge mesmo. Tempo é dinheiro, dinheiro é tempo. Vivemos voando em um mercado quantitativo em todos os sentidos [sem sentidos.] Não temos tempo para coisas ridículas. Somos os seres do século da realidade concreta.
Sinto-me nostálgico em relação ao passado
Daquele tempo onde eu tanto acreditava...)
(...)
II
(...)
E insisti repetindo para mim,
Que aquilo era muito, muito ridículo.
E também para o mundo,
Mas todos estavam com passos ligeiros.
Com hora marcada. Havia muita pressa.
(Somos o século da realidade concreta)
Não havia ninguém capaz de silenciar de si,
Para escutar o sentido maior da minha palavra,
Lá próximo do âmago da alma,
Onde eu resguardava a sua mais bela verdade.
Escutei-me. Era mesmo bastante ridículo.
Mas que ela, a vida, também é ridícula.
E que ridículo mesmo é não vivê-la.
Em toda a sua banalidade,
Em todas as suas dimensões pueris [ou não.]
E o que haveria de fazer mais, eu, pobre homem,
Naquele pequeno instante de efemeridade,
Do que aceitar aquilo em plenitude,
E vivenciar profundamente esse ridículo
Não como algo absolutamente dispensável,
Ou ainda como algo terrível e vexatório?
E após tanta repetição,
Bastou-me uma pequena dose de silêncio,
Para que algo mudasse
E transcorre por dentro
Com mais fluidez e mais leveza.
(Antônio Alberto P. de Almeida)
-
I
(...)
Eu disse - é ridículo.
(Antes eu pensei na falta de senso, de lógica, de pertinência e tudo mais que pudesse dizer que ali não havia uma ligação mais concreta com a realidade. E tudo se resumia nessa palavra: ridículo.
Era como no poema de Fernando Pessoa
Mas em pleno século XXI, não há espaço mais para essas coisas ridículas. Nem para aquele velho escrito que assim soa também, além de meio distante, ainda que guarde uma lição de sabedoria e um sentido maior, mas, reitero, de outro século.
Não há espaço para poesias fantasiosas. O tempo unge mesmo. Tempo é dinheiro, dinheiro é tempo. Vivemos voando em um mercado quantitativo em todos os sentidos [sem sentidos.] Não temos tempo para coisas ridículas. Somos os seres do século da realidade concreta.
Sinto-me nostálgico em relação ao passado
Daquele tempo onde eu tanto acreditava...)
(...)
II
(...)
E insisti repetindo para mim,
Que aquilo era muito, muito ridículo.
E também para o mundo,
Mas todos estavam com passos ligeiros.
Com hora marcada. Havia muita pressa.
(Somos o século da realidade concreta)
Não havia ninguém capaz de silenciar de si,
Para escutar o sentido maior da minha palavra,
Lá próximo do âmago da alma,
Onde eu resguardava a sua mais bela verdade.
Escutei-me. Era mesmo bastante ridículo.
Mas que ela, a vida, também é ridícula.
E que ridículo mesmo é não vivê-la.
Em toda a sua banalidade,
Em todas as suas dimensões pueris [ou não.]
E o que haveria de fazer mais, eu, pobre homem,
Naquele pequeno instante de efemeridade,
Do que aceitar aquilo em plenitude,
E vivenciar profundamente esse ridículo
Não como algo absolutamente dispensável,
Ou ainda como algo terrível e vexatório?
E após tanta repetição,
Bastou-me uma pequena dose de silêncio,
Para que algo mudasse
E transcorre por dentro
Com mais fluidez e mais leveza.
(Antônio Alberto P. de Almeida)
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Poesia
segunda-feira, setembro 29, 2014
[Prosa] A Face do Afeto no Desejo.
A Face do Afeto no Desejo.
-
Suspeito que o verdadeiro prenúncio de que há desejo é o saliente e salutar tocar do afeto. O debutar do afeto é, em suma, aquilo que tira algo da sua posição de desimportante e desloca para certo espaço primordial. Um primordial que muitas vezes pode ser visto, é verdade, como algo meio desimportante em termos gerais. Mas quem irá dizer que há algo mais nobre na vida dos seres humanos do que os afetos e os desejos? As questões mais profundas não são baseadas meramente em cálculos, nem organogramas, nem são capazes de serem medidas através de lógicas estritamente racionais. Trata-se de algo que está para, além disso, algo que é tocado pela poesia e pela palavra. Algo do singular, de cada um. E o que é essa singularidade? Se não “um eu” e também “um outro”, que tem uma história, construída em contextos diversos, vividas de formas diferentes, que guarda no âmago um mundo muitíssimo próprio que jamais será completamente desvendado, ainda que isso não seja motivo para não termos o ímpeto (próprio) da vontade de saber, de entrar em contato, de navegar por águas desconhecidas, e, então, a partir disso, assistir o nascer o afeto e do afeto, o debutar do desejo. E, assim seguimos, sendo entre mundo desconhecidos, sendo afetados uns pelos outros. Suspeito que seja daí que nasçam as poesias, que é aí o verdadeiro lugar da literatura. E, muito mais do que apenas falar das palavras escritas (não que isso seja pouca coisa) é também neste ponto que, entre os silêncios recônditos e a primazia dos olhares, que a existência começa a acontecer. E, então, surgem mais palavras, não mais escritas e às vezes estritamente simbólicas que vão formando as cenas, aonde, com afetos e desejos, a vida vai acontecendo nesta bagunça meio improvisada, com todo o seu velho ar astuto de imprevisibilidade.
(Antônio Alberto P. de Almeida)
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Prosa
quarta-feira, setembro 10, 2014
Eu Gosto De Quem Sorri Frente ao Desejo.
Eu gosto de quem sorri frente ao desejo.
-
Se constato que não há mesmo eternidade diante desse vai-e-vem da vida, que valor tem o próprio tempo se a pessoa não sorri frente ao desejo?
Eu não gosto de quem passa por cima dos outros, não é isso. Não gosto do narcisismo desenfreado, nem da irresponsabilidade diante do mundo. Isso não é sorrir frente ao desejo, é zombar da existência alheia.
Eu gosto de quem sorri frente ao desejo, pois não há nada mais pleno no mundo, do que se conciliar com os próprios impulsos e empuxos. Que vale uma vida cedida diante das possibilidades de caminhos que se esvaíram?
Eu não gosto de quem desiste de si, dos seus desejos.
Eu gosto de quem sorri e de quem deseja. Desejos nem sempre desembocam em sorrisos. Nem sorrimos apenas pelo que desejamos, mas não há mesmo coisa mais bela no mundo do que um sorriso, e do que um desejo.
Gosto também de quem sorri frente ao encontro dos desejos. E diante do encontro dos sorrisos.
Eu não gosto dos antagonismos narcísicos, dos mal-acabados e dos mal-entendidos.
E de que vale eu escrever e descrever que gosto de quem sorri frente ao desejo, de quem sorri e de quem deseja?
Traduzo: gosto mesmo é daqueles que vivem plenamente.
Ante as tristezas, os desejos.
E ante as impossibilidades, os sorrisos.
(Antônio Alberto P. de Almeida)
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Poesia
quarta-feira, setembro 03, 2014
[Poesia] Um Poema Entre Nós.
Um Poema Entre Nós.
I
O tempo é mudo.
Os ponteiros são mesmo arcaicos,
E analógicos diante dos dígitos,
Tal como esse poema, eu sei.
Que faço eu? Se por ser das letras,
Sinto-me mais próximo do antiquado
Quando ponho em palavras,
Não em imagens?
II
Os meus mais fortuitos olhares,
Observam-lhe bastante,
Seja sorrindo ou em angústia,
Sem a esperança de que algum dia,
Cesse essa distância,
Dona desta impossibilidade
E deste poema.
Se lhe observo ao longe,
É mesmo uma trágica circunstância,
Diria ser uma espécie de encontro ao acaso
Jamais concretizado
Imposta pelos destinos,
Não pelo (meu) desejo.
E devo mesmo lhe dizer,
Que não lhe observo somente,
Enquanto observo a ti,
Meus olhos estão sobre o mundo,
Que por vezes soa vazio,
Destituído de identidade,
De ser para além da imagem.
Do “semblante da vida moderna”.
E mesmo no mundo,
Meus olhares não cessam
De estarem sobre ti.
E devo mesmo repetir,
Que não lhe observo somente,
Enquanto observo a ti,
Meus olhos estão sobre o mundo,
Ele não me escapa,
Em toda sua dinâmica estressante
Em todas as suas figuras,
Em seus mosaicos desconexos
De cenas vividas,
Ele não me escapa...
Mas você sim.
(Antônio Alberto P. de Almeida)
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