sexta-feira, outubro 24, 2014

[Poesia] Ar-fictício

Ar-fictício.

“Fogos de Artifício...”.

Luzes colorem o céu,
Durante vários minutos,
No adormecer de um ano
E no debutar de outro.

São os artifícios que criamos,
Para trazer um ar de mudança,
Para a nossa pequenina vida cotidiana.

II

“Artifício...”

A fantasia é um artifício,
Em um mundo artificial.

Quem são aqueles,
Que estão por detrás dos semblantes?
Aquilo que está no âmago,
Não se assemelha ao que aparece.

Quem se afeta verdadeiramente,
Em um mundo de tantos interesses,
Aonde o olhar nas noites chuvosas,
Não são os mesmos dos dias de sol?

O leve ar de passageiro da vida,
Não é bem semelhante
A efemeridade do cotidiano.

III

“Artificial...”

Nesta época aonde se compra bastante
Não se consume apenas produtos,
Mas também pessoas e ideias,
Aquilo que outrora partiu do ócio...
Hoje se busca nos atacados
De objetos falsificados.

É mesmo um mundo imerso,
Pelos espetáculos pirotécnicos,
E por lâmpadas coloridas.
Aonde pequenos retângulos,
Contam sobre o viver.

E a velha sabedoria sobre a vida,
Onde fica neste mundo ligeiro,
Aonde o pensar... É algo artificial.
O que toca verdadeiramente uma alma,
É o silêncio recôndito de um olhar,
De uma bela palavra resguardada,
De três passos dado por nada...

IV

“Ar..tífici[o/al].”

Tocar uma alma,
Ou consumir a vida...
Opta-se e tudo segue...
Entre o espetáculo
Dos fogos de artifício,
E a leveza que cerca,
Um canto de um pássaro,
Numa manhã seguinte.
(Antonio Alberto P. de Almeida)

quarta-feira, outubro 15, 2014

[Narrativas Sobre Um Desejo] Duas desrazões - O Tempo e o Desejo.

Duas desrazões - O Tempo e o Desejo.

I

Nesta cidade sinto que
Semanas passam em segundos
E não mais que de repente,
Parece que na verdade,
Tudo já se passou há um ano.
(São as desrazões do tempo.)

II

E o desejo que eu desejei,
Soa levemente insatisfeito.
Passou... mais rápido,
Do que esta primavera.
Diria que foi uma bela promessa,
De flores que sucumbiram,
Antes que viessem ao mundo.
(São as desrazões do desejo.)


O tempo do desejo,
Não é o desejo de tempo.
Eis uma criatura emergente,
Que passa tão de repente,
Que já não saberia dizer,
Se diante do mundo,
Ainda anseio por você.
(São as desrazões da vida.)
(Antonio Alberto P. de Almeida)

sexta-feira, outubro 10, 2014

[Poesia] Sobre a Decepção.

Sobre a Decepção. 
-
Decepcionar-se é um ato
Profundo de excomunhão,
Aonde reverbera um silêncio interior.
Diante de algo que entra em desacordo.

Não há como negar a tristeza,
Mas também há a beleza,
Daquilo que pode nascer,
A partir do que se desmanchou.

Eis a vida vivida em plenitude.
(Antônio Alberto P. de Almeida) 

quarta-feira, outubro 08, 2014

[Narrativa Sobre Um Desejo] O Desejo é Uma Tarde.



E outra sobre o Desejo. 
-
O Desejo é Uma Tarde.
-
I
A luz que adentra levemente pela janela no fim da tarde lembra-me do meu desejo e de como a vida passa rapidamente. Um dia, uma semana, um mês, de repente é um ano, dois, três. Tudo isso, tal como essa tarde que logo passará e dará lugar a noite, traz um ar de efemeridade aos afetos e as sensações. Lanço olhos ao passado e observo as poesias que se eternizaram ao longo do tempo, escritos feitos em função das mais diversas histórias e circunstâncias. Hoje eles são como retratos empoeirados guardados numa velha gaveta. Palavras também são lembranças, se não visuais, de sensações.  
Retiro os meus olhos das gavetas entreabertas e lanço-os para o que me ocorre nos dias atuais. Observo o último mês e vejo o quanto dissertei sobre o desejo. Sobre um desejo em particular, absolutamente particular. Quando eu escrevo sobre o desejo, não escrevo nem para alguém, nem sobre alguém, apesar do desejo sempre estar em relação, ele não pertence ao outro, mas a mim. E continuo a vagar sobre o cotidiano. Penso em como o desejo é transitório, comporta as mais diversas ambivalências e, de forma alguma, é eterno ou indestrutível.  Ele é mesmo persistente, arredio em relação às nossas próprias vontades, mas também é rebelde, encontra outras vias, outros caminhos em relação às possibilidades da vida, não por nossa vontade, mas por sua vontade própria. Por fim, penso que é o desejo do desejo que determina o seu verdadeiro destino.
II
O desejo é irmão da tarde ensolarada,
Cujos raios adentram vibrantes pela janela.
E nos fazem sorrir por nada,
Ao lembrar quão bela é a vida.
Mas tão logo a tarde passa,
Quem ordena as direções é a noite,
A lua pode estar bela,
As estrelas inspiradoras,
Mas não há mais nenhuma garantia,
Sobre o qual será o destino do desejo,
Quando retornar à tarde ensolarada,
Ao findar das horas noturnas,
E depois da longa manhã que a antecipa...
(Antônio Alberto P. de Almeida) 

segunda-feira, outubro 06, 2014

[Narrativas Sobre um Desejo] Pequeno Escrito Sobre o Desejo.

E Outra sobre o Desejo. 
-
Reflexões Pós-Aula de Psicanálise.

O desejo não pode ser apenas uma marca mnêmica. Parece ser algo mais. Penso se não se trata de uma marca na alma. Pensando no desejo... ele parece partir de um leve rabisco feito por um outro de forma despropositada e acidental. Um rabisco que, no início a gente não sente, nem vê, nem percebe. Um rabisco que aos poucos vai insistindo em continuar, em ser inapagável. O rabisco que é desejo não some na primeira semana, nem na segunda... permanece no sol e na chuva, no silêncio e na gritaria.  E, de repente, eles se multiplicam. A alma fica impregnada por vários deles dispostos aleatoriamente E o tempo passa... e o que não se apaga, vai ganhando contorno, uma forma definida ali, outra aqui, e, então, algo parece se estabelecer , se definir. E diante de tanta arte, o que mais eu tenho a dizer? Que a vida parece uma criança travessa quando vem com essa mania de nos querer encher de quadros na alma.
(Antônio Alberto P. de Almeida) 

sábado, outubro 04, 2014

[Prosa] Da Natureza do Desejo.



Da Natureza do Desejo.
-
O desejo, por vezes, soa como algo tão tão ridículo... faz mesmo parte da sua natureza ter uma certa dose de desrazão. De desrazão e de impossibilidade de completude. Temos um absoluto desconhecimento acerca das suas origens. Como consequência este ser pode parecer estranhíssimo a nós mesmos, mas apenas até certo ponto, pois ele é um estranho intimamente particular. Estranho que amedronta, do qual nós queremos fugir, que gera angústia e também incerteza, pois o desejo, por mais sólido que seja, é filho da efemeridade e das intempéries do tempo, tudo isso se torna mais hiperbolizado quando falamos daqueles cuja natureza depende eminentemente de um casamento profundo com o desejo do outro para se realizar. Não existe “o desejo”, nem “um desejo”, mas os desejos que convivem em conflito ou não.  Os desejos podem ser contraditórios, dependem da própria sustentação do ser diante da vida, de bastante força e também de uma dose razoável de coragem. Alguns ofertam uma longa e difícil caminhada para a sua realização, basta olharmos, num grau máximo, a história dos feitos dos grandes homens da humanidade. No fundo, no fundo, o que eu acho mesmo é que se nós pudéssemos dá-los vida própria e eles pudessem falar, zombariam bastante de nós, não uma zombaria negativa ou irônica, mas uma que se cessaria com a seguinte frase “Sou o seu impulso rumo a alguma coisa. Não lhe dou certezas, como a vida, mas quando estou em ti, na minha forma mais essencial, sou você mesmo, as suas lembranças, histórias, a sua singularidade. Sei que em certos momentos precisarei ser adiado, ou ainda parecerei mesmo inatingível, mas escute: escute-me, viva-me ou cale-se diante da sua própria existência. Não desista de mim para não desistir de você, ”
(Antonio Alberto P. de Almeida)

quinta-feira, outubro 02, 2014

[Poesia] Uma Nota Sobre a Vida.



Uma Nota Sobre a Vida.

-

I

(...)

Eu disse - é ridículo.

(Antes eu pensei na falta de senso, de lógica, de pertinência e tudo mais que pudesse dizer que ali não havia uma ligação mais concreta com a realidade. E tudo se resumia nessa palavra: ridículo.

Era como no poema de Fernando Pessoa

Mas em pleno século XXI, não há espaço mais para essas coisas ridículas. Nem para aquele velho escrito que assim soa também, além de meio distante, ainda que guarde uma lição  de sabedoria e um sentido maior, mas, reitero, de outro século.

Não há espaço para poesias fantasiosas. O tempo unge mesmo. Tempo é dinheiro, dinheiro é tempo. Vivemos voando em um mercado quantitativo em todos os sentidos [sem sentidos.] Não temos tempo para coisas ridículas. Somos os seres do século da realidade concreta.

Sinto-me nostálgico em relação ao passado

Daquele tempo onde eu tanto acreditava...)

(...)

II

(...)

E insisti repetindo para mim,

Que aquilo era muito, muito ridículo.

E também para o mundo,

Mas todos estavam com passos ligeiros.

Com hora marcada. Havia muita pressa.

(Somos o século da realidade concreta)

Não havia ninguém capaz de silenciar de si,

Para escutar o sentido maior da minha palavra,

Lá próximo do âmago da alma,

Onde eu resguardava a sua mais bela verdade.

Escutei-me. Era mesmo bastante ridículo.

Mas que ela, a vida, também é ridícula.

E que ridículo mesmo é não vivê-la.

Em toda a sua banalidade,

Em todas as suas dimensões pueris [ou não.]

E o que haveria de fazer mais, eu, pobre homem,

Naquele pequeno instante de efemeridade,

Do que aceitar aquilo em plenitude,

E vivenciar profundamente esse ridículo

Não como algo absolutamente dispensável,

Ou ainda como algo terrível e vexatório?

E após tanta repetição,

Bastou-me uma pequena dose de silêncio,

Para que algo mudasse

E transcorre por dentro

Com mais fluidez e mais leveza.
(Antônio Alberto P. de Almeida)