segunda-feira, setembro 29, 2014

[Prosa] A Face do Afeto no Desejo.



A Face do Afeto no Desejo.
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Suspeito que o verdadeiro prenúncio de que há desejo é o saliente e salutar tocar do afeto. O debutar do afeto é, em suma, aquilo que tira algo da sua posição de desimportante e desloca para certo espaço primordial. Um primordial que muitas vezes pode ser visto, é verdade, como algo meio desimportante em termos gerais. Mas quem irá dizer que há algo mais nobre na vida dos seres humanos do que os afetos e os desejos? As questões mais profundas não são baseadas meramente em cálculos, nem organogramas, nem são capazes de serem medidas através de lógicas estritamente racionais. Trata-se de algo que está para, além disso, algo que é tocado pela poesia e pela palavra. Algo do singular, de cada um. E o que é essa singularidade? Se não “um eu” e também “um outro”, que tem uma história, construída em contextos diversos, vividas de formas diferentes, que guarda no âmago um mundo muitíssimo próprio que jamais será completamente desvendado, ainda que isso não seja motivo para não termos o ímpeto (próprio) da vontade de saber, de entrar em contato, de navegar por águas desconhecidas, e, então, a partir disso, assistir o nascer o afeto e do afeto, o debutar do desejo. E, assim seguimos, sendo entre mundo desconhecidos, sendo afetados uns pelos outros. Suspeito que seja daí  que nasçam as poesias, que é aí o verdadeiro lugar da literatura. E, muito mais do que apenas falar das palavras escritas (não que isso seja pouca coisa) é também neste ponto que, entre os silêncios recônditos e a primazia dos olhares, que a existência começa a acontecer. E, então, surgem mais palavras, não mais escritas e às vezes estritamente simbólicas que vão formando as cenas, aonde, com afetos e desejos, a vida vai acontecendo nesta bagunça meio improvisada, com todo o seu velho ar astuto de imprevisibilidade. 
(Antônio Alberto P. de Almeida) 

quinta-feira, setembro 25, 2014

[A Reflexão e o Cotidiano] Sobre O Ato De Escrever.

A escrita começa a nascer quando, em um instante, não nos sentimos contemplados pelos poemas e escritos alheios. Diria que se trata, em verdade, de uma espécie de incompreensão silenciosa do mundo com o nosso eu mais profundo. E não havendo compreensão, aos poucos vamos nos enchendo e por estarmos cheios, em um momento chegamos a transbordar. Do transbordo surgem palavras e mais palavras. Palavras jogadas. Palavras esparramadas no leito da vida, que ao juntarmos, em um lento e cuidadoso processo, fazem debutar as nossas próprias expressões, escritos e poemas.
(Antônio Alberto P. de Almeida) 

quarta-feira, setembro 24, 2014

[A Reflexão e o Cotidiano] Há Dias Que São Fundamentais.


Há Dias Que São Fundamentais.
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Hoje repousava em mim uma sensação serena, quando fui acometido pela idéia de que há dias que são fundamentais.  De início, não bem sei como descrever ou traduzir esta sensação sorrateira que me acometeu de repente e me trouxe ao limbo da escrita. Não é mesmo uma questão de acreditar que os dias fundamentais são os dias inesquecíveis, pode até ser que coincidentemente eles sejam, mas não é o essencial. O que eu tento demonstrar é que os dias fundamentais são aqueles que mudam, muitas vezes em silêncio, o rumo dos acontecimentos. Os dias fundamentais são aqueles em que as decisões, de uma forma geral, são tomadas no âmago da alma. Nos dias fundamentais o desejo é posto a frente, as velhas idéias são abandonadas, mudamos nossas posições, fazemos frente a algo ou decidimos ceder não por fraqueza, mas porque aquilo já não nos contempla mais. Os dias fundamentais são, em geral, solitários, as grandes decisões pessoais não abarcam intervenções externas. Somos nós e nós mesmos. É mesmo um momento de profundo monólogo existencial. E nestes momentos crescemos, amadurecemos, nos tornamos mais plenos em relação às nossas próprias existências, escolhas e ao mundo que nos cerca. São nos dias fundamentais que entendemos, essencialmente, que por mais que estejamos cercados de gente –e há mesmo gente por todos os lados- somos os grandes responsáveis por nós mesmos e os verdadeiros autores das nossas histórias de vida. 
(Antônio Alberto P. de Almeida.) 

sábado, setembro 20, 2014

[Poesia] A Moderna Insistente.



A Moderna Insistente.
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Vida Moderna, ansiosa jovem,
Que não suporta mesmo
A emoção da espera.
Ela corre na avenida,
Lança olhos para o lado,
Vê homens engravatados
Cardiopatas, filhos do nervosismo do mercado,
Do outro lado observa o homem comum
Rangendo os dentes na fila do supermercado,
E mais adianta a moça na fila do trânsito,
Temendo a bronca pelo atraso.
As comunicações são instantâneas,
As visualizações são simultâneas,
As imagens também são instantâneas,
E há mais visualizações simultâneas,
A comida também é instantânea,
E nesse mar de dados
A Vida Moderna forja o amor,
Que dança enquanto se balança,
Ao som da efemeridade fluida.
A Vida Moderna forja o desejo,
Que chora enquanto goza,
No silêncio das noites barulhentas.
E  a vida moderna vive a angústia.
Angústia que não mente.
E denuncia para a jovem ansiosa,
Que na vida em si mesma,
Ela não é mais que o avesso
Da natureza do imediato.
(Antônio Alberto P. de Almeida)
Fonte da foto.

sábado, setembro 13, 2014

[Poesia] O Ser da Engenhoca Urbana.



O Ser da Engenhoca Urbana.

O homem buscou inventar,
E inventou a tal da engenhoca urbana,
A engenhoca urbana riu e ironizou,
E reinventou o homem.
Fosse ele tão potente,
Não seria hoje um pobre submisso,
Diante da sua parca criação.

São centenas de milhares
De blocos de concreto,
Com tamanhos distintos,
Em meio ao cinema da vida cotidiana,
Que também não tem linearidade.

Viver neste mundo,
É sempre buscar espaço
Em meio ao império da riqueza.

Olho a tal da engenhoca..
Ela me olha, ri, me ignora.
É sempre esse mesmo olhar
Meio sarcástico, meio soberbo.
De quem diz que é apenas dona de si,
De mais ninguém.

Recapitulo a história,
Deste ser velho e moderno.

Aqui muitos estiveram ávidos
Em conquistar e dominar,
Dominar outros homens que ergueram
As colunas de aço e concreto,
E também as intempéries da natureza,
Que hoje seca as reservas de água.

E eis que observo..
E constato que tudo permanece
Mais ou menos igual,
Menos o homem
Que foi reinventado
Pela sua própria criação.

Olho para os outros olhares,
Cada um em uma direção.
Buscando a solução,
Para tudo aquilo que foi
Reinventado pela
Engenhoca urbana
Inventada pelo homens.

E questiono enquanto observo,
O que importa mesmo neste
Largo passo dado no nada?
Se não o abstrato de um
Dia que acorda mais ensolarado
Faz as cores vibrarem,
E lança um motivo desimportante,
Para darmos mais sorrisos.
E o próprio gesto da moça,
Que abre o caminho do amor.
O que importa mesmo é o banal,
Que ilustra as histórias,
Dos ditos grandes
E dos pequenos homens.

E ao fundo de tudo aquilo
Que é meio desimportante,
De todo esse cenário vivo,
D'onde acontecem os desenlaces,
Está mesmo a engenhoca urbana.

Repito que ela reinventou o homem,
Após ser inventada por ele,
Mas eis a maior das tragédias,
Acreditamos mais nela,
Com todas as suas contradições,
Do que na vivacidade que a vida,
Guarda em si mesma.
Do que na beleza dos olhares,
Trocados por nós mesmos,
Do que no que diz a profundidade
E a força das nossas existências.
(Antônio Alberto P. de Almeida)

quarta-feira, setembro 10, 2014

Eu Gosto De Quem Sorri Frente ao Desejo.


Eu gosto de quem sorri frente ao desejo. 
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Se constato que não há mesmo eternidade diante desse vai-e-vem da vida,  que valor tem o próprio tempo se a pessoa não sorri frente ao desejo? 

Eu não gosto de quem passa por cima dos outros, não é isso. Não gosto do narcisismo desenfreado, nem da irresponsabilidade diante do mundo. Isso não é sorrir frente ao desejo, é zombar da existência alheia. 

Eu gosto de quem sorri frente ao desejo, pois não há nada mais pleno no mundo, do que se conciliar com os próprios impulsos e empuxos. Que vale uma vida cedida diante das possibilidades de caminhos que se esvaíram?

Eu não gosto de quem desiste de si, dos seus desejos. 

Eu gosto de quem sorri e de quem deseja. Desejos nem sempre desembocam em sorrisos. Nem sorrimos apenas pelo que desejamos, mas não há mesmo coisa mais bela no mundo do que um sorriso, e do que um desejo.

Gosto também de quem sorri frente ao encontro dos desejos. E diante do encontro dos sorrisos. 

Eu não gosto dos antagonismos narcísicos, dos mal-acabados e dos mal-entendidos. 

E de que vale eu escrever e descrever que gosto de quem sorri frente ao desejo, de quem sorri e de quem deseja? 

Traduzo: gosto mesmo é daqueles que vivem plenamente. 

Ante as tristezas, os desejos.

E ante as impossibilidades, os sorrisos. 

(Antônio Alberto P. de Almeida) 

quarta-feira, setembro 03, 2014

[Poesia] Um Poema Entre Nós.


Um Poema Entre Nós.

I

O tempo é mudo.

Os ponteiros são mesmo arcaicos,
E analógicos diante dos dígitos,
Tal como esse poema, eu sei.
Que faço eu? Se por ser das letras,
Sinto-me mais próximo do antiquado
Quando ponho em palavras,
Não em imagens?

II

Os meus mais fortuitos olhares,
Observam-lhe bastante,
Seja sorrindo ou em angústia,
Sem a esperança de que algum dia,
Cesse essa distância,
Dona desta impossibilidade
E deste poema.

Se lhe observo ao longe,
É mesmo uma trágica circunstância,
Diria ser uma espécie de encontro ao acaso
Jamais concretizado
Imposta pelos destinos,
Não pelo (meu) desejo.

E devo mesmo lhe dizer,
Que não lhe observo somente,
Enquanto observo a ti,
Meus olhos estão sobre o mundo,
Que por vezes soa vazio,
Destituído de identidade,
De ser para além da imagem.
Do “semblante da vida moderna”.
E mesmo no mundo,
Meus olhares não cessam
De estarem sobre ti.

E devo mesmo repetir,
Que não lhe observo somente,
Enquanto observo a ti,
Meus olhos estão sobre o mundo,
Ele não me escapa,
Em toda sua dinâmica estressante
Em todas as suas figuras,
Em seus mosaicos desconexos
De cenas vividas,
Ele não me escapa...
Mas você sim.
(Antônio Alberto P. de Almeida)