A Face do Afeto no Desejo.
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Suspeito que o verdadeiro prenúncio de que há desejo é o saliente e salutar tocar do afeto. O debutar do afeto é, em suma, aquilo que tira algo da sua posição de desimportante e desloca para certo espaço primordial. Um primordial que muitas vezes pode ser visto, é verdade, como algo meio desimportante em termos gerais. Mas quem irá dizer que há algo mais nobre na vida dos seres humanos do que os afetos e os desejos? As questões mais profundas não são baseadas meramente em cálculos, nem organogramas, nem são capazes de serem medidas através de lógicas estritamente racionais. Trata-se de algo que está para, além disso, algo que é tocado pela poesia e pela palavra. Algo do singular, de cada um. E o que é essa singularidade? Se não “um eu” e também “um outro”, que tem uma história, construída em contextos diversos, vividas de formas diferentes, que guarda no âmago um mundo muitíssimo próprio que jamais será completamente desvendado, ainda que isso não seja motivo para não termos o ímpeto (próprio) da vontade de saber, de entrar em contato, de navegar por águas desconhecidas, e, então, a partir disso, assistir o nascer o afeto e do afeto, o debutar do desejo. E, assim seguimos, sendo entre mundo desconhecidos, sendo afetados uns pelos outros. Suspeito que seja daí que nasçam as poesias, que é aí o verdadeiro lugar da literatura. E, muito mais do que apenas falar das palavras escritas (não que isso seja pouca coisa) é também neste ponto que, entre os silêncios recônditos e a primazia dos olhares, que a existência começa a acontecer. E, então, surgem mais palavras, não mais escritas e às vezes estritamente simbólicas que vão formando as cenas, aonde, com afetos e desejos, a vida vai acontecendo nesta bagunça meio improvisada, com todo o seu velho ar astuto de imprevisibilidade.
(Antônio Alberto P. de Almeida)





