Mostrando postagens com marcador Contos e Crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos e Crônicas. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

[Conto] A Abóbora, o relógio e a bíblia.




A Abóbora, o relógio e a bíblia.

Abandonei a minha antiga casa há muitos anos. Como meus pais prosperaram economicamente, passei a habitar um condomínio de classe média. Este se debruçava ao fundo de uma rua sombria. Dentro dela havia apenas um pouco de comércio informal, que servia aos próprios moradores da região. Até os transeuntes eram raros. O grande bloco de pedras era todo pintado de laranja e carinhosamente havia sido registrado como “Roça do Joaquim”. Tinha este nome, porque se comenta que antes ali havia uma casa. Uma casa que desabou. Diz a lenda que nesta tragédia, morreu um único morador: o Seu Joaquim. A mesma conta que ele convivia apenas com a própria plantação de abóboras e com um porco de estimação.
Logo no início da minha mudança, cheguei a me espantar com aquela grande exposição épica. Era possível encontrar de tudo ali. De políticos conservadores à combatentes comunistas. Mas ainda havia algo que  estava destinado a descobrir. Tratava-se do grande símbolo de toda esta comicidade. Refiro-me a uma espécie de anciã. Que transcendia tudo já visto e existente, entre as coisas do mundo e dos homens. A sua pele bem alva e o seu sorriso misterioso eram marcantes. Ela se chamava Getulina. Apenas Getulina, ninguém sabia nada acerca do seu sobrenome. Morava no sexto andar. Sua convivência com os outros moradores resumia-se ao esbarrar-se dentro do espaço comum do condomínio. Recordo-me do meu primeiro encontro com ela. Foi numa tarde em que o sol vibrava de alegria. Ela se dirigiu a mim, em um tom sarcástico e quase ameaçador.
“Bom dia mocinho! Você é novo neste prédio, não é? Quer saber meu nome? Meu nome é Getulina! É em homenagem a Getúlio Vargas! Ele ainda será Presidente deste país!”
O elevador parou no sexto andar. Ela não saltou de início. Dez segundos se passaram. Quando a porta estava para fechar, ela abriu. Não me deu tchau. Apenas empurrou a porta e saiu ligeiramente. Me espantei com aquela criatura exótica e misteriosa. Quis saber mais sobre ela, nem os porteiros me contaram acerca da referida senhora. O mais antigo deles, me disse que ela havia se mudado para lá na ocasião já na inauguração do prédio, em 1976. Os meses se passaram não a vi mais. A curiosidade se retraiu no espaço diminutivo do tempo.
O meu segundo encontro foi na madrugada de um dia de outubro. Não me recordo exatamente qual. Voltava de uma festa, quando me esbarrei com ela no elevador, ela carregava três sacos do Bompreço. Certamente fazia supermercado de madrugada, pensei. Notei que havia apenas uma bíblia, um relógio e uma abóbora dentro destes. Não entendi. Estava meio tonto e aéreo, quando de repente, ela me retirou do meu estado de embriaguez com um grito:
“MOCINHO!”
E depois outro:
“MOCINHO!!”
E ainda um terceiro:
“MOCINHO!!!!”
Recuei dentro do elevador, prestes a enfartar, quando ela aproximou a sua cabeça da minha e disse:
“VOCÊ! VOCÊ! VOCÊ! Ah... Você eu já conheço. Meu nome é... meu nome você já sabe. Hoje eu tenho algo a te contar. Tá vendo esse relógio aqui? ESSE AQUI. Eu acabei de comprar. Não mudo a hora do meu relógio. Esse negócio de horário do verão é invenção dos homens! Eu sigo a hora de Deus!”
Alcançamos o sexto andar. Ela parou por dez segundos novamente. Saiu quando a porta ia se fechar e não me deu tchau Naquele instante, ainda assustado, oscilei entre a constatação de que precisava mudar o horário do meu relógio e a perplexidade da forma de agir daquela senhora excêntrica. 
Nunca mais a vi depois daquele encontro. O que aconteceu com a pobre anciã, ninguém sabe. Nem Dona Ana, que ainda mantém uma barraca de frutas em frente ao condomínio, e que posteriormente descobri, era a pessoa mais próxima àquela senhora. Quando nada se sabe, muito se comenta. As hipóteses e boatos, até hoje, são muitos. Há quem diga que ela ainda vive reclusa, outros comentam que os filhos vieram buscá-la. Há quem fale também que ela era uma bruxa ou uma grande artista, e estava a enganar a todos. Eu, eu me resigno a acreditar que ela foi engolida pelo próprio tempo.  Ou levada a um encontro com Deus. 
(Antônio Alberto P. de Almeida)

sexta-feira, novembro 27, 2009

Monólogo de um racional.

Monólogo de um racional.


-Tem algo repulsivo dentro de mim.

-Aí, eu não estou apaixonado.

-O que eu tenho é....

-é....

-é....

-é uma leve pertubação sócio-afetiva!

-Causada pela relação estabelecida

-entre o meu ego

-o vazio existencial

-e o meu objeto de desejo sexual

-que visa a propagação do DNA

-e a perpetuação da espécie.

(Antônio Alberto P de Almeida)

quarta-feira, maio 20, 2009

[Conto] Balbúrdia Social

[Conto] Balbúrdia Social

O Município de Sacramentos das Razões estava sofrendo com intensas chuvas; isso revelava o descaso histórico dos seus governantes. Deslizamentos de terras; pessoas desabrigadas; engarrafamentos intensos; e inundações; passaram a fazer parte do cotidiano daquela população.
O culto do principal templo da cidade lotou na tempestuosa sexta-feira; João do Canto puxou a multidão:
-E pega na mão de Deus!
E os fiéis com as mãos em direção aos céus respondiam:
-Peguei! Peguei!
E as falas pareciam andar em círculos.
-E pega na mão de Deus!
-Peguei! Peguei!
-E pega na mão...
-De Deus! de Deus!
E o líder do culto, no ardor da sua criatividade, variava:
E vamos rezar para Deus?
-Oremos pelo Senhor!
-E vamos rezar para Deus?
-Oremos pelo Senhor!
Ao ver um importante membro da organização na platéia,o pregador disse:
-Hoje estamos aqui com a presença do nosso ilustríssimo prefeito! Que tanto faz pela nossa cidade!
Ele se levantou e passou a acenar para o público, enquanto era ovacionado:
*Clap clap clap clap clap clap clap*
Após os aplausos, voltou-se à pregação:
-Senhor, ajudai a passar essas chuvas!
Os fiéis, sempre fiéis, respondiam aos gritos:
-Ajudai senhor! Ajudai senhor!
De repente houve um forte grito que paralisou todo o culto; era Mário que estava com a mão no peito, passando mal.
-Chamem o serviço médico do cidadão honesto-Gritou um cidadão desesperado.
O assessor, que se encontrava no fundo do templo, rapidamente pegou o seu celular e discou:
-Seguinte, é uma chamada emergencial; é o governante da cidade que está passando mal!
-Seu Silva? Deus do Céu; vou mandar a ambulância para aí já. Qual o endereço?
-Estamos no templo maior, na Avenida do Banco Central.-retrucou rapidamente o assessor.
-Temos um pequeno problema!
-Qual?
E com a voz temerosa a atendente disse:
-A única ambulância presente aqui, está sem médicos.
-Sua infeliz. Providencie uma solução.
-Eu só faço atender telefone...
-Vou lhe pagar um guaraná para você desviar uma ambulância para cá.
No transcorrer da confusão, o prefeito gritou:
-Chame os jornalistas! Os jornalistas! Eu preciso ser fotografado na ambulância do serviço médico do cidadão honesto.
O assessor com olhar de reprovação disse:
-Fale baixo; eu já chamei.
(...)
Nunca antes um atendimento do serviço médico da prefeitura havia sido feito com tanta eficiência. Após as fotografias e o fim da confusão; João do Canto puxou a multidão:
-Vamos agradecer a Deus por nada ter acontecido ao Prefeito Mário.
E junto com as batida de palmas se ecoava:
-Obrigado meu Deus! Obrigado meu Deus!
-E vamos agradecer a Deus por nada ter acontecido ao Prefeito Mário.
-Obrigado meu Deus! Obrigado meu Deus!
(...)
(Antônio Alberto P de Almeida)

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Marx?!

O filho de um empresário modesto do ramo de calçados, resolveu-lhe tirar da sua sensação de monotonia do sábado pela manhã,com uma questão um tanto fora do convencional:
-Papai, quem é Max?
O pai, que estava tomando café na hora, se engasgou. Depois de sucessivas tosses, disse-lhe:
-O QUÊ?! Karl Marx?! Quais lugares você andou frequentando?
Rapidamente, a empregada que estava na área de serviço, inteferiu:
-O único lugar que ele tem ido é na casa do vizinho, senhor.
-Eu sabia, eu sabia. Aquela casa cheia de comunistas é uma má-influência para o meu filho. Mas, eu vou lá tirar satisfação com aqueles infelizes!
Vinte minutos depois, o pai se dirigiu a casa do vizinho e tocou a campainha. Depois de um longo tempo de espera a porta se abriu:
-Bom dia..
-Olhe aqui seu marxista vagabundo, pare de ensinar coisas erradas ao meu filho. Ele me veio questionar quem era Marx, culpa sua!
Sereno e tranqüilo, ele respondeu:
-Ele deve ter questionado-lhe quem é Max. É o novo porteiro. Estava fazendo um serviço aqui em casa ontem de noite...
(Antônio Alberto P de Almeida.)

terça-feira, dezembro 16, 2008

As políticas

Numa movimentada loja de departamentos em época de natal, um dialógo se iniciou após a queda de uma árvore na rua que ficava em frente a loja:
-Essa cidade está um caos. Buracos, assaltos, árvores mal cuidadas. Estamos vivendo no inferno. Antigamente as coisas não eram assim.
-É o descaso desses governantes corruptos, por isso essas coisas estão acontecendo...
-Concordo. Aquele último prefeito, comunista , nunca deveria ter sido eleito. Tenho saudades do tempo da revolução, tempos limpos, de prosperidade.
-Que revolução?
-A de 64.
Assustado com o que ouviu, o jovem categoricamente retrucou:
-Revolução o quê? Aquilo foi uma ditadura. Prefeito, comunista? Ele é um neoliberal!
-Sim, meu filho. Naquela época as pessoas podiam sair na rua. A polícia era combativa e a vida era melhor. Mas se você prefere chamar de ditadura..
O jovem se aborreceu:
-O senhor sabe quantas pessoas morreram e foram torturadas? Quantas famílias tiveram sequer a chance de enterrar seus filhos? E ainda chama aquilo de "revolução"?
-Eram comunistas sujos, terroristas. Essa tal de Dilma Russef mesmo, assaltou um banco e quer virar presidente. Olhe o tamanho da anarquia em que vivemos!
-Eles lutavam pela nossa liberdade, por isso tinham que usar esses meios.
-Isso é o que eles diziam, na verdade eles lutavam pra instaurar um governo totalitário e escravizar a população para servir aos próprios interesses.
-Governo totalitário era esse que você está defendendo!
O velho se irritou:
-Naquela época você nem era nascido! Pare de tentar falar sobre coisas que você não viu. A culpa são desses historiadores marxistas que deturpam tudo!
-Pois eu me recus..
No momento em que o discussão ia esquentando, uma senhora falastrona que fazia compras na loja, interrompeu a conversa:
-Eu adoro esses assunto. Eu tava no interior uai, fazendo campanha pro prefeito de lá. Mas eu já gosto dessas coisa.
-Em que interi..
Extremamente afobada, ela interrompeu de novo:
-Mas eu odeio esses negoço de político. Eu gosto é da algazarra moço. Da folia que é a política.
(Antônio Alberto P de Almeida)

sábado, outubro 25, 2008

Conto(O Amor é uma Falácia.)

O Amor é uma Falácia
De M. Sulman

Eu era frio e lógico. Sutil, calculista, perspicaz, arguto e astuto - era tudo isso. Tinha um cérebro poderoso como um dínamo, preciso como uma balança de farmácia, penetrante como um bisturi. E tinha - imaginem só - dezoito anos.

Não é comum ver alguém tão jovem com um intelecto tão gigantesco. Tomem, por exemplo, o caso do meu companheiro de quarto na universidade, Pettey Bellows. Mesma idade, mesma formação, mas burro como uma porta. Um bom sujeito, compreendam, mas sem nada lá em cima. Do tipo emocional. Instável, impressionável. Pior do que tudo, dado a manias. Eu afirmo que a mania é a própria negação da razão. Deixar-se levar por qualquer nova moda que apareça, entregar a alguma idiotice só porque os outros a segue, isto, para mim, é o cúmulo da insensatez. Petey, no entanto, não pensava assim.

Certa tarde, encontrei-o deitado na cama com tal expressão de sofrimento no rosto que o meu diagnóstico foi imediato: apendicite.

- Não se mexa. Não tome laxante. Vou chamar o médico.

- Couro preto - balbuciou ele.

- Couro preto? - disse eu, interrompendo a minha corrida.

- Quero uma jaqueta de couro preto - disse.

Percebi que o seu problema não era físico, mas mental.

- Por que você quer uma jaqueta de couro preto?

- Eu devia ter adivinhado - gritou ele, socando a cabeça - Devia ter adivinhado que eles voltariam com o Charleston. Como um idiota, gastei todo o meu dinheiro em livros para as aulas e agora não posso comprar uma jaqueta de couro preto.

- Quer dizer - perguntei incrédulo - que estão mesmo usando jaquetas de couro preto outra vez?

- Todas as pessoas importantes da universidade estão. Onde você tem andado?

- Na biblioteca - respondi, citando um lugar não freqüentado pela pessoas importantes da Universidade.

Ele saltou da cama e pôs-se a andar de um lado para o outro do quarto.

- Preciso conseguir uma jaqueta de couro preto - disse, exaltado - Preciso mesmo.

- Por que, Pety? Veja a coisa racionalmente. Jaquetas de couro preto são desconfortáveis. Impedem o movimento dos braços. São pesadas, são feias, são ...

- Você não compreende - interrompeu ele com impaciência - é o que todos estão usando. Você não quer andar na moda?

- Não - respondi, sinceramente.

- Pois eu sim - declarou ele - daria tudo para ter uma jaqueta de couro preto. Tudo.

Aquele instrumento de precisão, meu cérebro, começou a funcionar a todo vapor.

- Tudo? - perguntei, examinando seu rosto com olhos semicerrados.

- Tudo - confirmou ele, em tom dramático.

Alisei o queixo, pensativo. Eu, por acaso, sabia onde encontrar uma jaqueta de couro preto. Meu pai usara um nos seus tempos de estudante; estava agora dentro de um malão, no sótão da casa. E, também por acaso, Petey tinha algo que eu queria. Não era dele, exatamente, mas pelo menos ele tinha alguns direitos sobre ela. Refiro-me à sua namorada, Polly Spy.

Eu há muito desejava Polly Spy. Apresso-me a esclarecer que o meu desejo não era de natureza emotiva. A moça, não há dúvida, despertava emoções, mas eu não era daqueles que se deixam dominar pelo coração. Desejava Polly para fins engenhosamente calculados e inteiramente cerebrais.

Cursava eu o primeiro ano de direito. Dali a algum tempo, estaria me iniciando na profissão. Sabia muito bem a importância que tinha a esposa na vida e na carreira de um advogado. Os advogados de sucesso, segundo as minhas observações, eram quase sempre casados com mulheres bonitas, graciosas e inteligentes. Com uma única exceção, Polly preenchia perfeitamente estes requisitos.

Era bonita. Suas proporções ainda não eram clássicas, mas eu tinha certeza de que o tempo se encarregaria de fornecer o que faltava. A estrutura básica estava lá.

Graciosa também era. Por graciosa quero dizer cheia de graças sociais. Tinha porte ereto, a naturalidade no andar e a elegância que deixavam transparecer a melhor das linhagens. Á mesa, suas maneiras eram finíssimas. Eu já vira Polly no barzinho da escola comendo a especialidade da casa - um sanduíche que continha pedaços de carne assada, molho, castanhas e repolho - sem nem sequer umedecer os dedos.

Inteligente ela não era. Na verdade, tendia para o oposto. Mas eu confiava em que, sob a minha tutela, haveria de tornar-se brilhante. Pelo menos valia a pena tentar. Afinal de contas, é mais fácil fazer uma moça bonita e burra ficar inteligente do que uma moça feia e inteligente ficar bonita.

- Petey - perguntei - você ama Polly Spy?

- Eu acho que ela é interessante - respondeu - mas não sei se chamaria isso de amor. Por quê?

- Você - continuei - tem alguma espécie de arranjo formal com ela? Quero dizer, vocês saem exclusivamente um com o outro?

- Não. Nos vemos seguidamente. Mas saímos os dois com outros também. Por quê?

- Existe alguém - perguntei - algum outro homem que ela goste de maneira especial?

- Que eu saiba não. Por quê?

Fiz que sim com a cabeça, satisfeito.

- Em outras palavras, a não ser por você, o campo está livre, é isso?

- Acho que sim. Aonde você quer chegar?

- Nada, anda - respondi com inocência, tirando minha mala de dentro do armário.

- Onde é que você vai? - quis saber Petey.

- Passar o fim de semana em casa.

Atirei algumas roupas dentro da mala.

- Escute - disse Petey, apegando-se com força ao meu braço - em casa, será que você não poderia pedir dinheiro ao seu pai, e me emprestar para comprar uma jaqueta de couro preto?

- Posso até fazer mais do que isso - respondi, piscando o olho misteriosamente. Fechei a mala e saí.

- Olhe - disse a Petey, ao voltar na segunda feira de manhã. Abri a mala e mostrei o enorme objeto cabeludo e fedorento que meu pai usara ao volante de seu Stutz Beacat em 1955.

- Santo Pai - exclamou Petey com reverência. Passou as mãos na jaqueta e depois no rosto.

- Santo Pai - repetiu, umas quinze ou vinte vezes.

- Você gostaria de ficar com ele? - perguntei.

- Sim - gritou ele, apertando a jaqueta contra o peito. Em seguida, seus olhos assumiram um ar precavido. - O que quer em troca?

- A sua namorada - disse eu, não desperdiçando palavras.

- Polly? - sussurrou Petey, horrorizado. - Você quer a Polly?

- Isso mesmo.

Ele jogou a jaqueta pra longe.

- Nunca - declarou resoluto.

Dei de ombros.

- Tudo bem. Se você não quer andar na moda, o problema é seu.

Sentei-me numa cadeira e fingi que lia um livro, mas continuei espiando Petey, com o rabo dos olhos. Era um homem partido em dois. Primeiro olhava para a jaqueta com a expressão de uma criança desamparada diante da vitrine de uma confeitaria. Depois dava-lhe as costas e cerrava os dentes, altivo. Depois voltava a olhar para a jaqueta. Com uma expressão ainda maior de desejo no rosto. Depois virava-se outra vez, mas agora sem tanta resolução. Sua cabeça ia e vinha, o desejo ascendendo, a resolução descendendo. Finalmente, não se virou mais: ficou olhando para a jaqueta com pura lascívia.

- Não é como se eu estivesse apaixonado por Polly - balbuciou. - Ou mesmo namorando sério, ou coisa parecida.

- Isso mesmo - murmurei.

- Afinal, Polly significa o que para mim, ou eu pra ela?

- Nada - respondi.

- Foi uma coisa banal. Nos divertimos um pouco. Só isso.

- Experimente a jaqueta - disse eu.

Ele obedeceu. A jaqueta ficou bem larga, passando da cintura. Ele parecia um motoqueiro mal vestido da década de cinqüenta.

- Serve perfeitamente - disse, contente.

Levantei-me da cadeira e perguntei, estendendo a mão.

- Negócio feito?

Ele engoliu a seco.

- Feito - disse, e apertou a minha mão.

Saí com Polly pela primeira vez na noite seguinte.

O Primeiro programa teria o caráter de pesquisa preparatória. Eu desejava saber o trabalho que me esperava para elevar a sua mente ao nível desejado. Levei-a para jantar.

- Puxa, que jantar interessante! - disse ela, quando saímos do restaurante. Fomos ao cinema.

- Puxa, que filme interessante! - disse ela, quando saímos do cinema.

Levei-a para casa.

- Puxa, que noite interessante - disse ela, ao nos despedirmos.

Voltei para o quarto com o coração pesado. Eu subestimara gravemente as proporções da minha tarefa. A ignorância daquela moça era aterradora. E não seria o bastante apenas instruí-la. Era preciso, antes de tudo, ensiná-la a pensar. O empreendimento se me afigurava gigantesco, e a princípio me vi inclinado a devolvê-la a Petey. Mas aí comecei a pensar nos seus dotes físicos generosos e na maneira como entrava numa sala ou segurava uma faca, um garfo, e decidi tentar novamente.

Procedi, como sempre, sistematicamente. Dei-lhe um curso de Lógica. Acontece que, como estudante de direito, eu freqüentava na ocasião aulas de Lógica, e portanto tinha tudo na ponta da língua.

- Polly - disse eu, quando fui buscá-la para o nosso segundo encontro. - Esta noite vamos até o parque conversar.

- Ah, que interessante! - respondeu ela.

Uma coisa deve ser dita em favor da moça: seria difícil encontrar alguém tão bem disposta para tudo.

Fomos até o parque, o local de encontros da universidade, nos sentamos debaixo de uma árvore, e ela me olhou cheia de expectativa.

- Sobre o que vamos conversar? - perguntou.

- Sobre Lógica.

Ela pensou durante alguns segundos e depois sentenciou:

- Interessante!

- A Lógica - comecei, limpando a garganta - é a ciência do pensamento. Se quisermos pensar corretamente, é preciso antes saber identificar as falácias mais comuns da Lógica. É o que vamos abordar hoje.

- Interessante! - exclamou ela, batendo palmas de alegria.

Fiz uma careta, mas segui em frente, com coragem.

- Vamos primeiro examinar uma falácia chamada Dicto Simpliciter.

- Vamos - animou-se ela, piscando os olhos com animação.

- Dicto Simpliciter quer dizer um argumento baseado numa generalização não qualificada. Por exemplo: o exercício é bom, portanto todos devem se exercitar.

- Eu estou de acordo - disse Polly, fervorosamente. - Quer dizer, o exercício é maravilhoso. Isto é, desenvolve o corpo e tudo.

- Polly - disse eu, com ternura - o argumento é uma falácia. Dizer que o exercício é bom é uma generalização não qualificada. Por exemplo: para quem sofre do coração, o exercício é ruim. Muitas pessoas têm ordem de seus médicos para não exercitarem. É preciso qualificar a generalização. Deve-se dizer: o exercício é geralmente bom, ou é bom para a maioria das pessoas. Do contrário está-se cometendo um Dicto Simpliciter. Você compreende?

- Não - confessou ela. - Mas isso é interessante. Quero mais. Quero mais!

- Será melhor se você parar de puxar a manga da minha camisa - disse eu e, quando ela parou, continuei:

- Em seguida, abordaremos uma falácia chamada generalização apressada. Ouça com atenção: você não sabe falar francês, eu não sei falar francês, Petey Bellows não sabe falar francês. Devo portanto concluir que ninguém na universidade sabe falar francês.

- É mesmo? - espantou-se Polly. - Ninguém?

Contive a minha impaciência.

- É uma falácia, Polly. A generalização é feita apressadamente. Não há exemplos suficientes para justificar a conclusão.

- Você conhece outras falácias? - perguntou ela, animada. - Isto é até melhor do que dançar.

- Esforcei-me por conter a onda de desespero que ameaçava me invadir. Não estava conseguindo nada com aquela moça, absolutamente nada. Mas não sou outra coisa senão persistente. Continuei.

- A seguir, vem o Post Hoc. Ouça: Não levemos Bill conosco ao piquenique. Toda vez que ele vai junto, começa a chover.

- Eu conheço uma pessoa exatamente assim - exclamou Polly. - Uma moça da minha cidade, Eula Becker. Nunca falha. Toda vez que ela vai junto a um piquenique...

- Polly - interrompi, com energia - é uma falácia. Não é Eula Becker que causa a chuva. Ela não tem nada a ver com a chuva. Você estará incorrendo em Post Hoc, se puser a culpa na Eula Becker.

- Nunca mais farei isso - prometeu ela, constrangida. - Você está bravo comigo?

- Não Polly - suspirei. - Não estou bravo.

- Então conte outra falácia.

- Muito bem. Vamos experimentar as premissas contraditórias.

- Vamos - exclamou ela alegremente.

Franzi a testa, mas continuei.

- Aí vai um exemplo de premissas contraditórias. Se Deus pode fazer tudo, pode fazer uma pedra tão pesada que ele mesmo não conseguirá levantar?

- É claro - respondeu ela imediatamente.

- Mas se ele pode fazer tudo, pode levantar a pedra.

- É mesmo - disse ela, pensativa. - Bem, então eu acho que ele não pode fazer a pedra.

- Mas ele pode fazer tudo - lembrei-lhe.

Ela coçou a cabeça linda e vazia.

- Estou confusa - admitiu.

- É claro que está. Quando as premissas de um argumento se contradizem, não pode haver argumento. Se existe uma força irresistível, não pode existir um objeto irremovível. Compreendeu?

- Conte outra dessas histórias interessantes - disse Polly, entusiasmada.

Consultei o relógio.

- Acho melhor parar por aqui. Levarei você em casa, e lá pensará no que aprendeu hoje. Teremos outra sessão amanhã.

Deixei-a no dormitório das moças, onde ela me assegurou que a noitada fora realmente interessante, e voltei desanimadamente para o meu quarto. Petey roncava sobre sua cama, com a jaqueta de couro encolhida a seus pés. Por alguns segundos, pensei em acordá-lo e dizer que ele podia ter Polly de volta. Era evidente que o meu projeto estava condenado ao fracasso. Ela tinha, simplesmente, uma cabeça à prova de Lógica.

Mas logo reconsiderei. Perdera uma noite, por que não perder outra? Quem sabe se em alguma parte daquela cratera de vulcão adormecido que era a mente de Polly, algumas brasas ainda estivessem vivas. Talvez, de alguma maneira, eu ainda conseguisse abaná-las até que flamejasse. As perspectivas não eram das mais animadoras, mas decidi tentar outra vez.

Sentado sob uma árvore, na noite seguinte, disse:

- Nossa primeira falácia desta noite se chama ad misericordiam.

Ela estremeceu de emoção.

- Ouça com atenção - comecei - Um homem vai pedir emprego. Quando o patrão pergunta quais as suas qualificações, o homem responde que tem uma mulher e dois filhos em casa, que a mulher e aleijada, as crianças não tem o que comer, não tem o que vestir nem o que calçar, a casa não tem camas, não há carvão no porão e o inverno se aproxima.

Uma lágrima desceu por cada uma das faces rosadas de Polly.

- Isso é horrível, horrível! - soluçou.

- É horrível - concordei - mas não é um argumento. O homem não respondeu à pergunta do patrão sobre as suas qualificações. Ao invés disso, tentou despertar a sua compaixão. Cometeu a falácia de ad misericordiam. Compreendeu?

Dei-lhe um lenço e fiz o possível para não gritar enquanto ela enxugava os olhos.

- A seguir - disse, controlando o tom da voz - discutiremos a falsa analogia. Eis um exemplo: deviam permitir aos estudantes consultar seus livros durante os exames. Afinal, os cirurgiões levam as radiografias para se guiarem durante uma operação, os advogados consultam seus papéis durante um julgamento, os construtores têm plantas que os orientam na construção de uma casa. Por quê, então, não deixar que os alunos recorram a seus livros durante uma prova?

- Pois olhe - disse ela entusiasmada - está e a idéia mais interessante que eu já ouvi há muito tempo.

- Polly - disse eu com impaciência - o argumento é falacioso. Os cirurgiões, os advogados e os construtores não estão fazendo teste para ver o que aprenderam, e os estudantes sim. As situações são completamente diferentes e não se pode fazer analogia entre elas.

- Continuo achando a idéia interessante - disse Polly.

- Santo Cristo! - murmurei, com impaciência.

- A seguir, tentaremos a hipótese contrária ao fato.

- Essa parece ser boa - foi a reação de Polly.

- Preste atenção: se Madame Curie não deixasse, por acaso, uma chapa fotográfica numa gaveta junto com uma pitada de pechblenda, nós hoje não saberíamos da existência do rádio.

- É mesmo, é mesmo - concordou Polly, sacudindo a cabeça. - Você viu o filme? Eu fiquei louca pelo filme. Aquele Walter Pidgeon é tão bacana! Ele me faz vibrar.

- Se conseguir esquecer o Sr. Pidgeon por alguns minutos - disse eu, friamente - gostaria de lembrar que o que eu disse é uma falácia. Madame Curie teria descoberto o rádio de alguma outra maneira. Talvez outra pessoa o descobrisse. Muita coisa podia acontecer. Não se pode partir de uma hipótese que não é verdadeira e tirar dela qualquer conclusão defensável.

- Eles deviam colocar o Walter Pidgeon em mais filmes - disse Polly - Eu quase não vejo ele no cinema.

Mais uma tentativa, decidi. Mas só mais uma. Há um limite para o que podemos suportar.

- A próxima falácia é chamada de envenenar o poço.

- Que engraçadinho! - deliciou-se Polly.

- Dois homens vão começar um debate. O primeiro se levante e diz: ‘o meu oponente é um mentiroso conhecido. Não é possível acreditar numa só apalavra do que ele disser’. Agora, Polly, pense bem, o que está errado?

Vi-a enrugar a sua testa cremosa, concentrando-se. De repente, um brilho de inteligência - o primeiro que vira - surgiu nos seus olhos.

- Não é justo! - disse ela com indignação - Não é justo. O primeiro envenenou o poço antes que os outros pudesse beber dele. Atou as mãos do adversário antes da luta começar... Polly, estou orgulhoso de você.

- Ora - murmurou ela, ruborizando de prazer.

- Como vê, minha querida, não é tão difícil. Só requer concentração. É só pensar, examinar, avaliar. Venha, vamos repassar tudo o que aprendemos até agora.

- Vamos lá - disse ela, com um abano distraído da mão.

Animado pela descoberta de que Polly não era uma cretina total, comecei uma longa e paciente revisão de tudo o que dissera até ali. Sem parar citei exemplos, apontei falhas, martelei sem dar trégua. Era como cavar um túnel. A princípio, trabalho duro e escuridão. Não tinha idéia de quando veria a luz ou mesmo se a veria. Mas insisti. Dei duro, até que fui recompensado. Descobri uma fresta de luz. E a fresta foi se alargando até que o sol jorrou para dentro do túnel, clareando tudo.

Levara cinco noites de trabalho forçado, mas valera a pena. Eu transformara Polly em uma lógica, e a ensinara a pensar. Minha tarefa chegara a bom termo. Fizera dela uma mulher digna de mim. Está apta a ser minha esposa, uma anfitriã perfeita para as minhas muitas mansões. Uma mãe adequada para os meus filhos privilegiados.

Não se deve deduzir que eu não sentia amor por ela. Muito pelo contrário. Assim como Pigmaleão amara a mulher perfeita que moldara para si, eu amava a minha. Decidi comunicar-lhe os meus sentimentos no nosso encontro seguinte. Chegara a hora de mudar as nossas relações, de acadêmicas para românticas.

- Polly, disse eu, na próxima vez que nos sentamos sob a árvore - hoje não falaremos de falácias.

- Puxa! - disse ela, desapontada.

- Minha querida - prossegui, favorecendo-a com um sorriso - hoje é a sexta noite que estamos juntos. Nos demos esplendidamente bem. Não há dúvidas de que formamos um bom par.

- Generalização apressada - exclamou ela, alegremente.

- Perdão - disse eu.

- Generalização apressada - repetiu ela. - Como é que você pode dizer que formamos um bom par baseado em apenas cinco encontros?

Dei uma risada, contente. Aquela criança adorável aprendera bem as suas lições.

- Minha querida - disse eu, dando um tapinha tolerante na sua mão - cinco encontros são o bastante. Afinal, não é preciso comer um bolo inteiro para saber se ele é bom ou não.

- Falsa Analogia - disse Polly prontamente - eu não sou um bolo, sou uma pessoa.

Dei outra risada, já não tão contente. A criança adorável talvez tivesse aprendido a sua lição bem demais. Resolvi mudar de tática. Obviamente, o indicado era uma declaração de amor simples, direta e convincente. Fiz uma pausa, enquanto o meu potente cérebro selecionava as palavras adequadas. Depois reiniciei.

- Polly, eu te amo. Você é tudo no mundo pra mim, é a lua e a estrelas e as constelações no firmamento. For favor, minha querida, diga que será minha namorada, senão a minha vida não terá mais sentido. Enfraquecerei, recusarei comida, vagarei pelo mundo aos tropeções, um fantasma de olhos vazios.

Pronto, pensei; está liquidado o assunto.

- Ad misericordiam - disse Polly.

Cerrei os dentes. Eu não era Pigmaleão; era Frankenstein, e o meu monstro me tinha pela garganta. Lutei desesperadamente contra o pânico que ameaçava invadir-me. Era preciso manter a calma a qualquer preço.

- Bem, Polly - disse, forçando um sorriso - não há dúvida que você aprendeu bem as falácias.

- Aprendi mesmo - respondeu ela, inclinando a cabeça com vigor.

- E quem foi que ensinou a você, Polly?

- Foi você.

- Isso mesmo. E portanto você me deve alguma coisa, não é mesmo, minha querida? Se não fosse por mim, você nunca saberia o que é uma falácia.

- Hipótese Contrária ao Fato - disse ela sem pestanejar.

Enxuguei o suor do rosto.

- Polly - insisti, com voz rouca - você não deve levar tudo ao pé da letra. Estas coisas só têm valor acadêmico. Você sabe muito bem que o que aprendemos na escola nada tem a ver com a vida.

- Dicto Simpliciter - brincou ela, sacudindo o dedo na minha direção.

Foi o bastante. Levantei-me num salto, berrando como um touro.

- Você vai ou não vai me namorar?

- Não vou - respondeu ela.

- Por que não? - exigi.

- Porque hoje à tarde eu prometi a Petey Bellows que eu seria a namorada dele.

Quase caí para trás, fulminado por aquela infâmia. Depois de prometer, depois de fecharmos negócio, depois de apertar a minha mão!

- Aquele rato! - gritei, chutando a grama. - Você não pode sair com ele, Polly. É um mentiroso. Um traidor. Um rato.

- Envenenar o poço - disse Polly - E pare de gritar. Acho que gritar também deve ser uma falácia.

Com uma admirável demonstração de força de vontade, modulei a minha voz.

- Muito bem - disse - você é uma lógica. Vamos olhar as coisas logicamente. Como pode preferir Petey Bellows? Olhe para mim: um aluno brilhante, um intelectual formidável, um homem com futuro assegurado. E veja Petey: um maluco, um boa vida, um sujeito que nunca saberá se vai comer ou não no dia seguinte. Você pode me dar uma única razão lógica para namorar Petey Bellows?

- Posso sim - declarou Polly - Ele tem uma jaqueta de couro preto.



( in Sulman, M. (1973): As calcinhas cor-de-

rosas do Capitão, Porto Alegre: Ed. Globo)

domingo, outubro 19, 2008

Crônica(A História de um anônimo)

A História de um anônimo

Aos 15 anos tive o primeiro grande desafio da minha vida, me mudar da minha pequena cidade no interior para a capital, a cidade grande.
Logo quando cheguei na cidade grande, fiquei encantado, era tudo tão fantástico e novo para mim, prédios altos, shoppings-centers, outdoors. Parecia que eu estava em outro mundo. Fiquei muito feliz com a mudança, não gostava mesmo do interior, aquilo era muito monótono pra mim. Eu queria mesmo era ser alguém, vencer na vida. Sonhava em ser um grande pesquisador, um Rutheford , e acreditava que realmente conseguiria um dia.
A escola ao contrário da do interior, era grande e bonita, fiquei deslumbrado. As pessoas eram metidas, e não saíam dos seus grupos. Não estava acostumado com isso, tive que me adaptar, apenas um amigo me fez companhia ao longo do ensino médio, ele mudou de cidade logo após o vestibular.
Prestei vestibular apenas na universidade pública, que era uma exigência da minha família para que eu continuasse na cidade grande. Estudei muito e passei com folga, em terceiro lugar, e estava ansioso para o início do meu curso, para mim aquilo era um sonho que iria se realizar.
Logo quando iniciei os meus estudos percebi o descaso, dos professores, dos alunos descompromissados, e dos laboratórios mal-equipados. O Que era sonho, tinha virado pesadelo e meus sonhos se transformaram em desilusões. Naquele dia eu pensei muito... e conclui que estava sozinho no mundo, desiludido, desencaminhado e desenganado.
O Tempo foi passando, completei duas décadas... e em um domingo de tarde decidi ir numa sorveteria. Numa dessas peças que o destino prega, vi uma garota com um livro de física na mão e resolvi questioná-la, começamos a conversar e não paramos mais. Marcamos outros encontros e eu acabei me apaixonando. Quando eu achava que ia ser correspondido, ela me revelou que era lésbica. Mas apesar disso, eu ganhei o que realmente precisava naquele momento da minha vida, uma grande amiga.
Uns dois anos se passaram desde aquele dia na sorveteria, eu continuava apaixonado por ela, e foi quem realmente me apoiou naquele tempo . Mas num dia qualquer, ela disse que teria que mudar de cidade, e que me daria notícias, nunca deu. Caí em depressão profunda, era ela quem eu realmente amava e queria ter ela ao menos por perto.
Me recuperei com a ajuda de alguns conhecidos da universidade e conclui o meu curso de bacharelado em química, e posteriormente o de licenciatura. Estava atirado ao mercado, era a hora de buscar um emprego.
Depois de muitas tentativas, consegui um emprego de professor num pequeno colégio particular. A minha missão era ensinar Ciências para a sexta série. Descobri dois grandes defeitos meus com essa experiência, era muito lerdo e um péssimo orador, ou seja não daria para ser professor. E não deu outra, fui demitido por incompetência. Minha família ameaçava cortar a minha ajuda de custo, e caso isso acontecesse eu teria que voltar para o interior para cuidar de gado.
Desesperado, procurei emprego como vendedor em lojas, apenas para me manter na cidade. Consegui um numa pequena livraria. Ela funcionava em um shopping pequeno, que quase não tinha movimento e tinha apenas eu de empregado. Aproveitava o tempo livro para ler sobre química. Porém, Passei pouco tempo ali, num dia qualquer folheando os classificados encontrei uma oportunidade de trabalho melhor. Consistia em ser auxiliar de supervisor em um laboratório de análises químicas que estava abrindo na cidade.
Liguei, marquei, e fiz a minha entrevista, e depois de alguns dias de muita ansiedade, recebi a notícia de que tinha sido selecionado. O Salário não era lá essas coisas, mas era o meu primeiro emprego na área. O meu sonho de um dia vim a ser um Rutheford, aos poucos voltou.
Praticamente não dormi na noite que antecedeu o meu primeiro dia de trabalho. O Sol estava nascendo quando eu me levantei para tomar o café da manhã. No jornal como sempre, passava as mazelas do dia anterior mas nada naquele dia estragaria a minha felicidade. Arrumei-me e caminhei para o ponto pegar o ônibus, dei "bom dia" para o porteiro que estava de mau humor, "bom dia" para o cobrador que também estava de mau humor. Não conseguia entender como aquelas pessoas conseguiam estar assim, num dia de sol tão belo, e tão feliz, ao menos pra mim.
Ao chegar no laboratório fiquei fascinado ao ver tantos pesquisadores renomados e mais ainda, em ter a oportunidade de trabalhar com eles. Fui logo recepcionado pelo meu chefe, que me orientou aonde e como eu iria trabalhar. Eu já havia ouvido falar nele, e disse que seria um prazer puder trabalhar com ele. Para o meu espanto, ele respondeu de forma amigável e disse que assim que tivesse tempo me convidaria para um bate papo sobre química, me senti lisonjeado com isso.
Apesar de tudo, o meu dia de trabalho foi apático e eu fiquei cabisbaixo, o meu trabalho ao contrário de mim, era algo mecânico. Meu objetivo mesmo era trabalhar com pesquisa, descobrir novas coisas. Naquele momento eu pensei em abandonar tudo e voltar para o interior para cuidar de gados, porém a minha jornada na cidade já havia sido um desastre muito grande para eu desistir, decidi que agora eu iria até o fim.
Peguei o ônibus para voltar para casa no horário de pico, estava lotado. Eu me encontrava praticamente dormindo, quando dois homens fortemente armados entraram e anunciaram um assalto. Eles gritavam muito, estavam extremamente nervosos e deram a ordem para que todos se deitassem no chão . De repente um policial à paisana sacou uma arma, atirou em um dos bandidos, e em seguida iniciou-se um tiroteio. E Quando fui perceber, estava sob uma poça de sangue. Era o meu fim, a minha morte.
Eu não era perfeito, nunca fui. Mas a minha jornada não fez jus a minha história, ela foi um desastre. Mas não digo que tive azar. Fui apenas mais uma vítima dentre milhões. A maioria das pessoas que morreram como eu, são anônimas e morreram anônimas. Digo a maioria por que elas não faziam parte das elites. Sofri com muitas coisas, o descaso com a educação e a universidade, o estado inoperante, o bandido e a polícia. Morri como um anônimo sim, fui apenas mais um número para a estatística e uma nota para o rodapé do jornal. Fui vítima dos que eram vítimas da sociedade, e os grandes culpados nunca foram condenados e nunca serão. Mas o grande sonho da minha vida, era um dia ter sido alguém que fez algo notável pela humanidade, e não cumpri. Vivi em vão.
(Antônio Alberto P de Almeida)